Kalaripayiti – A arte marcial da India

” Pois ouvi dizer que aquele que bem sabe conservar a sua vida não encontra o rinoceronte nem o tigre quando viaja por terra; nem é atacado por armas quando vai para a batalha.O rinoceronte não encontra lugar para enfiar-lhe o chifre; o tigre não encontra lugar para deitar-lhe as garras; as armas não encontram lugar para passar-lhe as lãminas.Por que isto acontece? Porque ele transpôs a região da morte.”

Tao Te Ching, de Lao Tzu

Cerca de uma hora antes do nascer do sol, as crianças de um pequeno povoado rural do sul da Índia reúnem-se numa pedreira dos arredores. A pedreira é iluminada pela lua, queaos poucos some no céu, e por uma lâmpada fluorescente suspensa. As crianças conversam entre si, e suas vozes mal se destacam contra os sons bruscos do povoado que desperta: um balde sendo enchido de água num poço; um prolongado e agonizante acesso de tosse. Então o Mestre chega e, depois das adequadas saudações aos deuses e a ele, as crianças começam a sessão matinal de kalaripayit, a arte marcial do sul da Índia.

Praticam durante cerca de uma hora, girando e contorcendo-se com agilidade extraordinária, o som de sua respiração formando uma espécie de contraponto com os outros sons que os rodeiam – os grasnidos dos primeiros bandos de corvos que cruzam o céu cada vez mais claro; os passos silenciosos de um elefante que caminha sossegado rumo a uma obra de construção nas proximidades; a terra sendo varrida pelas mães das mesmas crianças; e os alto-falantes do templo local, que tocam de forma distorcida uma música sagrada que ecoa pelos campos. Por fim, quando o sol chega à altura das folhas mais altas dos coqueiros, a aula termina e as crianças vão para a escola ou para o trabalho.

O Templo de Venkatanatha foi construído no século VII d.e. no precinto dos templos de Kanchipuram, perto de Madras, na Índia. Os frisos de suas paredes internas trazem representações dos conflitos entre as dinastias reais e contêm algumas das mais antigas imagens de técnicas de artes marciais.

Como não há nem escolas nem mestres de kalaripayit fora da Índia, podemos compreender por que essa tradição tem sido tão esquecida pelos estudiosos de artes marciais. É extraordinário, porém, que nenhum dos pesquisadores e escritores que vêm estudando as artes marciais há tantos anos tenha feito se quer uma simples menção à existência do kalaripayit. Os poucos escritores que falam das artes marciais indianas só fazem referência a um sistema importado, semelhante ao karatê; mas é difícil crer que qualquer um que tenha visto indianos praticando kalaripayit possa descrevê-la desse modo. Mas, enfim, como essa atitude existe, sentimos ser o nosso dever elaborar uma defesa desta arte marcial praticamente desconhecida.

O estilo setentrional de kalaripayit dá ênfase à capacidade de elevar-se de uma posição quase deitada para uma postura alta. Este tipo de exercício aumenta a agilidade e a flexibilidade. Neste caso, o aluno também se vira para o outro lado em pleno ar.

Há dois pontos que têm de ser esclarecidos antes de mais nada. Em primeiro lugar, será o kalaripayit uma arte marcial surgida na Índia, ou terá sido importada? E, em segundo lugar, será que permanece a mesma desde que foi criada ou acaso sumiu para depois reaparecer, talvez sob outra forma?

Podemos provar que as artes marciais já eram praticadas no sul da Índia durante os séculos VI e VII. Certas estátuas do Templo de Kanchipuram, perto de Madras, construído no começo do século VII d.C., representam o uso de técnicas completas de desarmamento, bem como o uso das mais diversas armas. Dispomos também dos testemunhos oculares de Hsüan-tsang, o famoso peregrino, erudito e diplomata chinês, que escreveu sobre as armas indianas que viu em sua viagem:

“Os principais soldados do país são escolhidos dentre os membros mais corajosos do povo, e, como os filhos seguem a profissão dos pais, desde muito cedo adquirem um conhecimento da arte da guerra. [Em tempo de paz], residem numa guarnição em torno do palácio, mas quando saem em expedição marcham na frente das outras tropas, cumprindo o papel de vanguarda. O exército tem quatro divisões, a saber: (1) a infantaria, (2) a cavalaria, (3) as carruagens e (4) os elefantes. Estes últimos são recobertos de uma forte armadura, e esporões afiados são instalados em suas presas. O comandante fica numa carruagem de guerra, que é dirigida por dois cocheiros, um dos quais fica à direita e o outro à esquerda, e é puxada por quatro cavalos dispostos de largo. O general dos soldados permanece em seu carro de guerra; é rodeado por uma fileira de guardas, que jamais se afastam das rodas da carruagem.

“A cavalaria espalha-se à frente para resistir aos ataques e, em caso de derrota, para distribuir as ordens pelo exército inteiro. A infantaria, por seus movimentos rápidos, contribui com a defesa. Os homens de infantaria são escolhidos por sua coragem e sua força. Levam uma longa lança e um escudo enorme; às vezes portam uma espada ou um sabre, e avançam à frente com impetuosidade. Todas as suas armas de guerra são pontudas e afiadas. Eis algumas delas: lanças,

Muitas das posturas da dança clássica indiana assemelham-se às posturas do kalaripayit, o que nos dá a entender que as duas artes descendem de uma tradição comum de luta, como mostram estas duas fotografias. A postura clássica de dança adotada pela jovem dançarina da foto abaixo é idêntica à postura do deus, acima, que foi entalhada no começo do século VII na parede de um dos templos de Kanchipuram.

Os Mestres de Kalaripayit:

As vidas dos mestres, cada qual em sua aldeia, geralmente seguem todas o mesmo modelo. Depois da prática matinal com as crianças, eles se dedicam à sua outra função importante, a de médico do povoado.

Nas artes marciais, é comum que os mestres sejam também médicos. Em virtude da própria natureza da arte, a pessoa que pratica técnicas de luta por muito tempo vai adquirindo um conhecimento cada vez maior de medicina, uma vez que quase todo dia há alguém que se machuca durante a prática. Ainda quando é um jovem aluno, o mestre aprende a curar hematomas e distensões leves; mas, à medida que passa a dedicar-se seriamente à arte e já antevê a possibilidade de tomar-se um mestre, começa a estudar mais e aprende a curar fraturas e ferimentos internos. Muitos mestres não ultrapassam esse nível de conhecimento, mas outros vão adiante e chegam à maestria total na prática da medicina de seu país.

Um dia passado na companhia de um mestre médico, vendo-o cuidar de seus pacientes, nos mostra o quanto a medicina ocidental é limitada por suas técnicas científicas rígidas e mecânicas. Mesmo no caso de um médico de aldeia, o sistema tradicional de medicina da Índia (Ayurveda) caracteriza-se por uma profundidade de cuidado e atenção ao paciente que quase não se encontra no Ocidente.

Muitos pacientes são homens que se machucaram no trabalho, geralmente por trabalhar demais. Para um pobre pescador, um dia de trabalho perdido numa consulta ao médico é uma perda severa, que se prolonga até que o médico consiga ajudá-lo a recuperar as forças para voltar a arrastar as redes de pesca.

O nome halaripayit é uma combinação de duas palavras usadas pelo povo de Kerala, que fala a língua malaiala. Kalari significa “lugar” ou “campo de batalha”, e payit significa “práticas”. Portanto, o termo significa literalmente “treinamento ou prática para o campo de batalha”. O kalaripayitcompreende dois grandes estilos que, por se distribuírem segundo uma divisão geográfica, são conhecidos como estilos do norte e do sul.

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O estilo do norte é praticado principalmente pelos Nayars, povo de língua malaiala que segue a tradição cultural ariana do norte da Índia. Já a região mais meridional da Índia é ocupada por povos de língua tâmil, descendentes dos mais antigos habitantes da região que praticam o estilo do sul. Esse estilo também é ensinado em Madras, mas, provavelmente, somente pelos imigrantes tâmiles.

Curiosamente, parece não haver mestres entre as cidades de Nagercoil, no extremo sul da península indiana, e Madras. Embora nunca se tenha feito um censo oficial, estima-se em mais de cem o número de mestres de cada estilo. Eles ensinam no decorrer de todo o ano, exceto durante a estação quente e seca que vai de janeiro a abril, quando pára todo o ensinamento.

Embora os laços que unem os estilos do norte e do sul sejam evidentes, e apesar de o kalaripayit ser, de maneira geral, muito diferente de todas as demais artes marciais, existem diferenças significativas entre os dois estilos. Na fronteira geográfica entre os dois grupos culturais e estilos de luta, as duas tradições sobrepõem-se em certa medida. Algumas pessoas de língua malaiala também praticam o estilo do sul na região onde moram.

O kalaripayit do norte é praticado num edifício de dimensões fixas – quatorze por sete metros -, de paredes grossas, cujo piso fica cerca de um metro abaixo do nível do solo no exterior. Esse edifício, o kalari ou campo de batalha do povoado, é de propriedade do mestre, que às vezes o usa também como consultório e sala de massagens. Os alunos só praticam à noite e entre quatro paredes, para evitar que os segredos da arte sejam divulgados.

Tecnicamente, o estilo do norte é caracterizado por técnicas de saltar e chutar no alto, pelos passos longos, posturas baixas e bloqueios e golpes aplicados com as mãos e os braços quase totalmente estendidos. As técnicas de aquecimento são extremamente árduas e cansativas. Uma das características peculiares do estilo do norte é todo um conjunto de formas ou padrões de movimento chamadas de suvadus, praticadas com ou sem o uso de armas; além disso, diversas técnicas de respiração, provavelmente tiradas da yoga, fazem igualmente parte do regime de treinamento.

Os saltos altíssimos e espetaculares constituem uma das técnicas que distinguem a escola do norte.

Uma massagem, em que a frente e as costas do aluno são trabalhadas sistematicamente, acima, dura cerca de meia hora e é feita uma vez por dia. Depois de um mês de tratamento, o corpo do aluno é considerado flexível o suficiente para que o treinamento possa começar.

Já o estilo do sul é freqüentemente praticado ao ar livre e durante o dia. Alguns mestres usam certas concavidades naturais do terreno como campos de treinamento, mas outros simplesmente dão aula entre as palmeiras que crescem atrás de suas casas. Muitos mestres do sul têm campos de treinamento em diversos povoados e passam boa parte de seu tempo viajando de povoado em povoado para ensinar, quer de madrugada, quer ao anoitecer.

O estilo do sul é caracterizado pelo forte uso dos braços, dos ombros e do tronco. Aqui, o lutador da direita está aplicando uma chave de braço em seu adversário, que, para livrar-se, empurra para trás a cabeça do outro.

Nos campos de treinamento do sul, não há tantos altares enfeitados e dedicados aos deuses hindus, mas os alunos de ambos os estilos, antes do treinamento, têm de fazer saudações aos deuses e deusas da guerra e ao mestre. Há todo um panteão de deuses associados ao kalari, mas a figura mais importante é a de Kali, a deusa da guerra.

o estilo do sul tem mais movimentos circulares e talvez pareça um pouco mais violento que o do norte. Os golpes e bloqueios são desferidos em geral com as mãos abertas e os braços flexionados. As formas – os padrões básicos de movimento usados na prática – e a maneira de usar as armas que caracterizam o estilo do sul são diferentes das do norte. Não há tantos chutes e saltos quanto no estilo setentrional, mas posturas mais altas e mais sólidas e um uso mais poderoso dos braços, dos ombros e do tronco.

O estilo do sul talvez não seja tão enérgico quanto o do norte, mas impressiona pela força e pela robustez de seus praticantes, que constantemente caem, rolam e são atirados sobre o chão pedregoso e empoeirado, mas sempre voltam a levantar-se, cheios de poeira aderida aos seus membros e vestimentas.

Enquanto os nortistas geralmente almejam a perfeição da forma, o objetivo dos sulistas é a eficiência e a força na ação. O que divide o kalaripayit em dois estilos distintos não é tanto o conteúdo da arte (que é essencialmente o mesmo em ambos os estilos), mas sim as diferenças de língua e cultura e os métodos de execução dos movimentos.

Em ambos os estilos, a arte do kalaripayit é composta de quatro tipos de técnicas de combate: o treinamento sem armas; o treinamento com bastões de bambu ou de ratan; o treinamento com diversas armas; e, para os alunos mais avançados, as técnicas secretas de ataque aos pontos vitais, técnicas essas que na Índia são chamadas de marma-adi. Além desses tipos básicos de treinamento, os alunos também praticam técnicas de luta desarmada contra adversários armados de bastão e outras armas, bem como o uso de diversos lançamentos, chaves e outras técnicas de imobilização. Os alunos aprendem todos esses ramos da arte desde o princípio do treinamento; mas, de pleno acordo com a disseminada teoria de que as armas são essencialmente uma extensão dos membros, os mestres dão mais ênfase à luta desarmada.

O Treinamento:

O kalaripayit ainda não recebeu a atenção que merece por parte dos entusiastas das artes marciais, e esperamos que este relato estimule outros pesquisadores responsáveis a levar adiante outras pesquisas, mais detalhadas e prolongadas, sobre esta arte antiga e fascinante.

O kalaripayit que conhecemos ainda é em grande medida uma arte rural, praticada em muitos vilarejos do sudoeste da Índia. Os praticantes só se tornam mestres depois de um longo e árduo período de treinamento, e, dos cerca de quarenta mestres que conhecemos pessoalmente, a grande maioria tinha mais de 50 anos de idade. Quase todos também eram mestres da medicina ayurvédica tradicional.

Alguns mestres faziam muita questão do segredo e só ensinavam uns poucos alunos, ao passo que outros tinham escolas grandes e movimentadas, nas quais cerca de quarenta ou mais alunos compareciam às sessões de treinamento. Essas sessões se realizam nos períodos mais frescos do dia, antes das oito horas da manhã ou depois do pôr-do-sol; duram cerca de uma hora e meia. A maioria dos mestres gosta de ensinar seus alunos pelo menos duas vezes por semana.

Os alunos mais jovens que vimos eram crianças de 10 anos de idade. Havia também alguns principiantes de cerca de 30 anos, muitos dos quais começaram a treinar seguindo uma recomendação médica. Algumas meninas e moças estudam a arte. Os alunos que evidentemente já treinavam de forma intensa há alguns anos tinham uma forma física perfeita, um físico excelente e grande agilidade, rapidez e resistência.

O crocodilo, acima, é um exercício tipicamente indiano no qual os alunos se posicionam como se fossem fazer flexões de braço e depois caminham para a frente cerca de dez metros, equilibrando-se sobre as mãos e os dedos dos pés. Depois, na mesma posição, voltam ao ponto de partida. Só vimos este exercício executado num único lugar fora da Índia: num espetáculo da ópera chinesa clássica em Taipei, Taiwan.

Antes de o aluno começar a treinar o kalaripayit, ele precisa ser massageado diariamente pelo mestre. Essa massagem solta e dilata os músculos e tendões, preparando o aluno para o esforço do treinamento.

O aluno é esfregado com óleo de coco misturado com ervas e deita-se numa plataforma de madeira levemente curva. Equilibrando-se numa corda pendurada cerca de um metro e meio acima da sua cabeça, o mestre usa os pés para massagear as costas e os membros do discípulo, trabalhando do centro do corpo em direção às extremidades. Enquanto faz isso, ele fica de pé sobre o aluno, mas a pressão e os movimentos de seus pés são minuciosamente controlados.

Antes de o mestre abrir a sessão de treino, como em qualquer academia de artes marciais em qualquer lugar do mundo, os alunos de todas as categorias espalham-se pelo kalari praticando formas, aquecendo-se ou lutando de leve. Segue-se então um elaborado ritual de saudação, no qual cada aluno venera a mãE terra, o mestre e os deuses do kalari. A saudação consiste num conjunto complexo de movimentos – fazer gestos de luta, andar em círculos, tocar o chão e beijar os pés do mestre.

Então, os alunos dispõem-se em duas fileiras. Juntos, executam uma série rigorosa de exercícios de aquecimento para tensionar e alongar os músculos, tendões e articulações. Alguns desses exercícios, como as flexões de braço e os abdominais, encontram-se também na maioria dos programas ocidentais de exercício físico, mas muitos são peculiares à Índia.

Num determinado exercício, os alunos põem o braço direito atrás das costas e apóiam-se no chão com o braço esquerdo, como se fossem fazer flexões de braço. Então, baixam o corpo até o chão, apoiando-se na mão esquerda e torcendo o corpo ao mesmo tempo. O grau de flexibilidade necessário para a execução rápida desses exercícios é semelhante ao de um acrobata ou contorcionista.

Essa parte ginástica do programa de treinamento não é feita somente para aquecer os músculos e alongar os tendões e articulações em preparação para a prática marcial, mas também colabora muito para o desenvolvimento da boa forma física. Às vezes, os alunos têm de executar vinte ou trinta flexões de braço ou exercícios semelhantes, não só para fortalecer os músculos, mas também para melhorar a circulação e a respiração. Depois de cerca de meia hora de ginástica, os alunos passam à prática das técnicas de mãos nuas, que constituem o fundamento da arte.

As Técnicas de Mãos Nuas:

Os golpes, bloqueios e chutes que compõem o kalaripayit são ensaiados um após o outro pelos alunos sozinhos ou em grupos de dois, nos quais um ataca e o outro defende.

Como implica o próprio nome das técnicas, a maioria dos golpes é dada com a mão aberta e rígida. A mão nessa posição pode ser usada como uma faca, quer para “cortar” (com o lado da mão), quer para “furar” (com as pontas dos dedos). A parte mais dura da palma, perto do pulso, e o punho cerrado, também são usados para socar. Os bloqueios, em sua maioria, são circulares, ou seja, o braço descreve um movimento circular para aparar o golpe. O ponto de contato é o antebraço.

No estilo do sul, quase todos os chutes são baixos e têm como alvo a frente do corpo do adversário, mas o chute de lado (no qual o joelho é levantado à altura da cintura, com o pé para o lado, e o chute penetra o lado do corpo do adversário) também é usado às vezes. Os pontos de contato são o peito do pé, o dedão do pé e a protuberância na sola do pé logo atrás do dedão. No estilo do norte, os chutes são muito altos. Alguns alunos são capazes de chutar de frente a uma altura de dois metros e meio acima do solo.

Faz-se muita questão de que os chutes não sejam bloqueados, mas evitados por meio de esquivas, e por isso muitas das formas predeterminadas consistem num salto de uma posição muito baixa para a postura ereta. Ao mover os pés em combate, os adeptos do kalaripayit de ambos os estilos costumam levantar muito alto os calcanhares, dando uma impressão empertigada que é exclusiva desta arte. Esses movimentos são feitos para evitar os tropeções no terreno pedregoso do sul da Índia.

Numa técnica de bloqueio que só existe no kalaripayit, o lutador levanta o pé num chute alto à frente para empurrar para trás o bíceps do adversário. Essa técnica, que serve para aparar um soco, é muito eficaz.

Técnicas de Luta Corpo-a-Corpo:

Todas as técnicas que descrevemos até agora são típicas da tradição de luta de punhos e pés que pode remontar à época de maior glória da Babilônia. Porém, o kalaripayit não se resume a essas técnicas. Há todo um conjunto de técnicas de luta corpo-a-corpo que consistem em chaves, arremessos e técnicas de imobilização do oponente. Articulações são apertadas, membros são torcidos e pontos nervosoS são pressionados a fim de neutralizar ou lançar longe o atacante. Para a execução eficaz dessas técnicas, é preciso usar golpes circulares, deixar os membros sempre flexionados e conservar uma postura de paz física e mental.

Algumas dessas técnicas são evidentemente derivadas das grandes tradições indianas de luta corpo-a-corpo cujas raízes remontam a um passado ainda mais longínquo que as do kalaripayit. Entretanto, há outras que não têm relação com essas tradições. As chaves e lançamentos complexos do kalaripayit atual encontram-se também nas artes marciais chinesas suaves e no jiu-jitsu (ju-jutsu) no  aikidô do Japão e na eskrima das Filipinas. Você também a encontra nos graus mais elevados do karatê de Okinawa. Elas são vistas, de maneira geral, como as técnicas mais avançadas das artes marciais.

As formas são esquemas predeterminados de movimentos ofensivos e defensivos que o aluno tem de aprender a reproduzir com precisão. São o fundamento do kalaripayit, como de quase todas as artes marciais, pois são assimiladas a tal ponto que o aluno, ao lutar, reproduz automaticamente as técnicas nelas contidas. Muitas formas envolvem seqüências de movimentos que começam na posição agachada, progridem para um salto ou torção do corpo e terminam na postura agachada ou sentada.
As posturas mais baixas são usadas principalmente como esquivas dos chutes e golpes de armas. Os lutadores são capazes de partir dessas posições baixas diretamente para o contra-ataque. As duas posições à esquerda são muito semelhantes às posturas em que os atletas eram representados na arte dos gregos da antiguidade.

A prática de formas:

Depois da prática de técnicas, o mestre conduz seus alunos na prática de formas. Essas formas são seqüências predeterminadas de movimentos que o aluno deve repetir continuamente até ser capaz de executá-las com perfeição. Cada forma dura cerca de um minuto e incorpora de vinte a cinqüenta técnicas essenciais. Depois de praticar repetidamente, os alunos passam a conhecer as formas tão bem que, ao defrontar-se com um adversário, são cap~zes de executar as técnicas contidas nas formas de maneira quase instintiva.
O aluno se movimenta em linha reta para a frente, para trás, para a esquerda e para a direita, usando passos de ataque, recuo, esquiva, etc., para unir todas as técnicas num único movimento fluido, que descreve sempre a forma de uma cruz ou de um quadrado.
As formas, chamadas suvadu no sul da Índia, começam e terminam com uma saudação. São muito bonitas de se ver. Certas técnicas são feitas dos dois lados ou repetidas em diferentes direções. Assim, depois de dar um passo à frente com a perna direita e desferir um soco e um bloqueio com o braço direito, o movimento seguinte pode ser o de virar 180 graus, dar um passo à frente com a perna esquerda e desferir um soco e um bloqueio com o braço esquerdo.
No kalaripayit, as formas de mãos nuas também podem ser reproduzidas de modo exato com uma arma na mão. A prática a dois produz uma forma parelhada de treino de combate. Esse treino a dois é coreografado e, por isso, é totalmente diferente da luta livre, na qual os alunos podem usar quaisquer movimentos e técnicas, desde que não machuquem um ao outro.
As formas são usadas extensamente em muitas artes marciais chinesas e japonesas. Sabe-se que, há muitos séculos, algumas formas chinesas chegaram ao sul da Índia. Essas formas caracterizam-se por movimentos de mãos muito mais rápidos e complicados do que os das formas indianas. O conhecedor os reconhece claramente como chineses, muito embora estejam longe de ser simples
cópias de formas chinesas.
As formas têm a finalidade de gerar a disciplina e o autocontrole no praticante e de melhorar o equilíbrio, o ritmo e a precisão dos seus movimentos. Muitas formas do kalaripayit envolvem a execução de giros voadores espetaculares, fintas ou ataques simulados para desviar a atenção do adversário ou enganá-lo; agachamentos ou pulos para desviar de chutes ou golpes. Além das formas tradicionais do norte e do sul, existem aquelas que os próprios mestres desenvolvem para a prática de luta com armas.

O Treinamento com o Bastão :

A prática de luta com o porrete e o bastão, chamada sílambam no sul da Índia, é quase uma arte marcial independente. Há pouco tempo, procuraram-se estabelecer torneios e competições esportivas para encorajar o desenvolvimento de uma arte do bastão, mas os mestres de kalaripayit ainda a ensinam segundo a forma tradicional como parte do treinamento básico.
Na Ásia inteira, o porrete e o bastão sempre foram populares como armas de defesa. O bastão, companheiro tradicional do viajante, é leve, não chama a atenção e não representa uma ameaça imediata a ninguém. Na qualidade de arma, porém, é barato e fácil de obter, forte e durável e pode ser usado de muitas maneiras diferentes. O bastão proporciona uma defesa eficaz contra todas as armas, exceto os projéteis. A maioria dos bastões, mesmo os feitos de ratan e de bambu, agüentam firme até os golpes de lãminas afiadas; com efeito, é possível, com um porrete ou bastão, arrancar uma lâmina de metal das mãos de um oponente ou mesmo quebrá-la.
Os porretes e bastões também são excelentes armas de treinamento. Não têm fio, mas infligem uma dor suficiente para acabar com a apatia dos praticantes. Cortados no tamanho apropriado, podem ser esculpidos de forma a representar facas, espadas, lanças, alabardas e outras armas, que podem ser manipuladas com facilidade. O porre te e o bastão apresentam certas vantagens especiais em combate, uma vez que podem ser usados para atordoar, imobilizar ou causar dor num adversário sem provocar ferimentos sérios. Não é por acaso que são as armas escolhidas por tantas forças policiais pelo mundo afora.
Os bastões de silambam usados na Índia têm um tamanho que vai de quinze centímetros a pouco menos de dois metros. A maioria dos alunos usa bastões feitos de ratan, que é bastante flexível, ao passo que os alunos avançados usam bastões de madeira dura.
Os bastões mais compridos são empunhados, em geral, com uma mão no centro e a outra numa das extremidades da arma. É característico da luta indiana, porém, que o bastão seja empunhado com ambas as mãos por uma de suas extremidades e movimentado rapidamente, de modo a infligir vários golpes em seqüência. Os bloqueios são efetuados pelo bastão empunhado com ambas as mãos, cada qual colocada a um terço do comprimento da arma.
As técnicas do silambam caracterizam-se pelas posturas baixas e pelo desferimento rápido de golpes e bloqueios. As formas simples e em duplas são estudadas primeiro, seguidas pela luta livre, geralmente entre mestre e discípulo.

O Treinamento com Armas :

Muitas técnicas de bastão podem ser usadas com as outras armas do kalaripayit. Uma das armas mais simples, feita com um par de chifres de veado, tem duas pontas aguçadas e também é excelente para bloquear. A adaga indiana, chamada bundi na maior parte das regiões do subcontinente, também é excelente para bloqueios em virtude da conformação singular do seu cabo. O lutador pode usar uma ou duas adagas.


As espadas, com lâmina de cerca de 65 centlmetros de comprimento, costumam ser usadas sozinhas, aos pares ou com um broquel ou escudo. Entre as outras armas usadas no kalaripayit, podemos mencionar o tridente, o machado de batalha e vários tipos de lança. Há também um conjunto de armas improvisadas, como facões feitos das hastes de peixes-espada, e até mesmo facas tridirecionais, ou seja, facas de três lâminas voltadas para diferentes direções.
A urumi ou espada de lâminas flexíveis talvez seja a arma mais espetacular da Índia. É feita de duas ou três lâminas de metal, cada qual com cerca de quatro centímetros de largura e dois metros de comprimento, unidas numa das extremidades a um cabo de madeira. Seu uso é difícil e perigoso, mas, uma vez dominada, é um meio extremamente eficaz de enfrentar um ataque simultâneo de vários oponentes.


Bastões com pesadas bolas de madeira encaixadas nas extremidades são usados como pesos voadores, mais ou menos como eram as maças européias. Podem também ter as extremidades cobertas com tecidos, encharcadas de óleo e acesas como tochas para amedrontar e deter os adversários. Pode ser que essa arma tenha tido a sua origem nos tempos antigos, quando o fogo era usado para deter as investidas dos elefantes nas batalhas.
Muitas armas do kalaripayit lembram as armas medievais. Tanto as armas quanto as técnicas pelas quais são usadas podem ter-se originado nos campos
Algumas moças aprendem o kalaripayit. Esta aluna está praticando o silambam, a luta com o bastão, que deve dominar antes de poder começar a treinar com outras armas. Um dos aspectos menos usuais do silambam é o hábito de bater com o bastão no chão antes de atacar. Isso permite que o ataque parta de baixo para cima. Trata-se também de um ataque simulado, com o objetivo de confundir o inimigo.

Um par de chifres de veado fixados de tal modo que uma mão possa caber entre suas bases, onde eles se unem, compõe uma arma altamente incomum. Pode ser usada de modo muito eficaz para bloquear, e as pontas, para furar.

As facas tridirecionais têm três lâminas dispostas a 90 graus umas em relaçâo às outras. Acredita-se que essa arma foi inventada pelo mestre sulista Mathavan Asan. É útil para dilacerar e muito eficiente para bloquear ataques.
A urumi ou espada de lâminas flexíveis é mantida enrolada e, quando solta, é vergastada no ar para produzir um barulho extraordinário, poeira, centelhas e confusão. Ambos os gumes das lâminas de aço são afiados, o que torna a urumi uma arma mortífera. O usuário cria ao redor de si uma espécie de tela defensiva, movimentando a arma rapidamente pelo ar em movimentos circulares e virando de repente para surpreender o oponente. Para deter o movimento da arma, o guerreiro a faz enrolar-se em torno da sua cintura.

Vasudevan Gurrukal supervisiona dois alunos seus que estão começando a praticar, a dois, uma forma de bastões curtos. O aluno à direita usa um bastão curvo que lembra a presa de um elefante.

Esses dois praticantes do estilo do sul, acima, estão executando uma série complexa de movimentos, típica das técnicas de artes marciais mais sofisticadas. O defensor, à esquerda, imobilizou o braço e a mão direita do agressor, que está segurando uma faca tridirecional. O defensor passa então a mão esquerda entre o braço direito e a garganta do agressor, e pode assim sufocá-lo e desarmá-lo simultaneamente.

A adaga chamada bundi, à esquerda, tem uma lãmina sulcada de dois gumes e um cabo singular que a torna eficientíssima no combate corpo-a-corpo. Os apoios laterais possibilitam que o guerreiro bloqueie com os antebraços os golpes desferidos por outras armas de corte e aproxime-se rapidamente do oponente. Era a arma principal do estado de Bundi, fundado em meados do século XlV, e ajudou o grão-mogoljahangir a sobrepujar seus inimigos no século XVII.

Hoje em dia, o kalaripayit é mais usado em ocasiões cerimoniais e festivas do que em batalhas, e isso fez com que se desse ênfase às técnicas e armas mais espetaculares, cuja utilidade marcial é, muitas vezes, duvidosa. Porém, a maioria das outras técnicas usadas atualmente é aterrorizante e eficiente.

A adaga chamada bundi

O Conhecimento Medicinal dos Mestres:

Quando os alunos avançados chegam ao fim do treinamento extenso e rigoroso do kalaripayit, alguns buscam penetrar mais fundo na sabedoria e no conhecimento dos seus mestres. Só uns poucos alunos, escolhidos a dedo, podem seguir esse caminho; mas, para os que podem fazê-lo, existem duas veredas que podem ser percorridas, quer uma à exclusão da outra, quer as duas juntas. Ambas têm por base uma intimidade cada vez maior com as operações do corpo humano, e, em certo sentido, as duas são complementares. Por um lado, há o caminho da medicina e da cura da grande tradição ayurvédica. Por outro, há o caminho da arte marcial secreta do marma-adi, do conhecimento dos pontos vitais do corpo.

O mestre, que não só nesta como em todas as artes marciais, é tradicionalmente o médico local, tem de tratar não só os ferimentos mais simples que os alunos sofrem durante a prática, como hematomas e estiramentos musculares, mas também, às vezes, um centro nervoso ferido ou um osso fraturado. De vez em quando, um aluno ou praticante sofre ferimentos internos no abdõmen ou em outra parte do corpo. Depois de anos e anos tratando uma larga variedade de ferimentos, o mestre se torna um especialista em medicina. . .

Além disso, num sentido mais rigorosamente marcial, os mestres indianos de kalaripayit têm acesso ao venerável conjunto de conhecimentos de medicina contidos nos shastras, antigos textos ou tratados escritos sobre folhas de palmeira e transmitidos de mestre a discípulo.

O Mestre Vasudevan ensina a Moses Thilak a técnica secreta de golpear os pontos vitais, chamada marma-adi. Acima, usando um bastão curtíssimo, o mestre golpeia a parte de trás do crãnio de Thilak. Esse golpe o deixará instantaneamente inconsciente. No pé da página, o Mestre usa o antebraço esquerdo para aparar um soco dado por Thilak e ao mesmo tempo ataca o peito do adversário com o cotovelo direito. As mãos unidas dão mais força à defesa e ao ataque do Mestre.

O lado mais espetacular do kalaripayit se revela nesta imagem de um lutador girando clavas em chamas. Hoje em dia, essas técnicas são executadas antes de mais nada para acrescentar um fator dramático às demonstrações de kalaripayit, mas pensa-se que originaram-se no campo de batalha, como técnicas para assustar os animais – elefantes, por exemplo – usados pelos exércitos inimigos. Seria possível devastar um exército inteiro se o ataque de seus elefantes se voltasse contra ele mesmo.

O Sushruta-Samhita, shastra de medicina que data de algum momento entre os séculos II e IV d.C., escrito pelo médico e cirurgião indiano Sushruta, traz informações específicas acerca de 107 ou 108 pontos do corpo que, quando atingidos, perfurados ou apertados com força, produzem paralisia temporária, dor extrema, perda de consciência ou mesmo a morte imediata ou diferida.

Na Índia, considera-se que esses pontos vitais são os pontos de junção de vasos sangüíneos, ligamentos e centros nervosos. Cada ponto se localiza numa região minuciosamente determinada do corpo, que pode ser pequena e difícil de identificar e deve ser golpeada de maneira específica e com uma força controlada. Por isso, só os mais adiantados dentre os praticantes da arte são capazes de usar esse conhecimento com eficácia.

Todos os mestres guardam ciosamente seu conhecimento dos pontos vitais; aqueles com quem conversamos nos deixaram claro que o pouco que estavam dispostos a nos transmitir deveria ser tratado com o máximo respeito. Por isso, só reproduzimos fotografias daqueles golpes em pontos vitais reconhecidos como pontos perigosos não só nas artes marciais, mas também em disciplinas como o boxe. Quase todos os lutadores sabem que as têmporas, o osso esterno, a veia jugular e os testículos são pontos altamente vulneráveis. Existe, porém, um grande número de pontos menos conhecidos que podem ser usados com muito mais eficácia para neutralizar um oponente.

Alguns leitores talvez permaneçam céticos perante a nossa reticência em tratar deste tema. Entretanto, nos anais da ciência legal européia e asiática, há relatos detalhados e extensamente documentados sobre o que pode acontecer com uma pessoa atingida em qualquer um desses pontos. Se falamos pouco neste livro acerca do conhecimento dos pontos vitais, ,não é por alimentar dúvidas em relação à validade das informações que recebemos, mas por respeito pelos mestres. Os que têm vontade de saber mais devem estudar com diligência por muitos anos até que um mestre se disponha a revelar-lhes, em confiança, essas perigosíssimas informações.

o sistema secreto do marma-adi é mais um indício da antigüidade e da profundidade do kalaripayit. Ele coloca a arte indiana no mesmo nível das mais esotéricas dentre as artes chinesas e japonesas, que também contêm conhecimentos secretos de natureza mortífera. Os especialistas que compararam as localizações dos pontos vitais reveladas nos antigos textos indianos com as localizações conhecidas pelos modernos praticantes das artes chinesas e japonesas constataram um alto grau de compatibilidade entre os dois sistemas.

Conformes à tradição das artes marciais, os mestres de marma-adi do sul da Índia sabem ressuscitar qualquer pessoa atingida num dos pontos vitais. Para tanto, usam massagem, manipulação dos ossos e articulações, ervas e preparados medicinais. Não é de surpreender que tenham adquirido um tal conhecimento, pois, de vez em quando, durante o treinamento, um dos alunos é atingido acidentalmente num dos pontos vitais. Há um aspecto desse sistema que praticamente só ocorre no sul da Índia: existem lá alguns homens que são mestres somente do marma-adi e não praticam nenhuma outra forma de arte marcial.

Métodos de Controle dos Elefantes:

Não só os seres humanos, mas também os animais têm pontos vitais, muitos dos quais são conhecidos pelos indianos. Sabe-se que o elefante tem noventa pontos. Apertando um dos pontos com seu bastão, o mahout ou condutor pode fazer seu elefante trombetear; apertando outros, pode fazê-lo ajoelhar-se, deitarse, virar 180 graus, ir em frente, etc. Existem seis pontos que, se forem apertados do jeito correto, causam medo no elefante; um ponto que o deixa entorpecido; e quatorze que causam a morte imediata do animal.

Entre na galeria de fotorafias:

3 Respostas to “Kalaripayiti – A arte marcial da India”

  1. junior da hora Says:

    cara valeu!!! eu fiz um artigo justamente encima dessa arte marcial!!!! interessantissima!! pena que é pouco conhecida..

  2. Este texto é do livro O Caminho do Guerreiro, de 1983, editora Cultrix e assinado por Howard Reid e Michael Croucher.

  3. Sim é um livro maravilhoso, é um dos únicos que fala sobre essa arte. abraço

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