Entrevista com Carlos Tramujas

Tenho muito orgulho de publicar aqui no blog a  entrevista do meu mestre Carlos Tramujas. Foi em 1998, em Niterói, que fiz um curso com Carlos Tramujas, na casa de um grande amigo e mentor no bonsai Jorge Antonio. Embora já me dedicasse à arte a 8 anos, foi no curso com Carlos Tramujas que meus olhos abriram para a importância da triangulação, a busca da paciência e a ordem correta de executar as etapas básicas na criação do bonsai.

Quero agradecer o tempo que ele dedicou a entrevista, pois sei que ele tem pouco tempo disponível e milharem de filhas para cuidar.  Obrigado mestre Carlos Tramujas. 

O Caminho de Carlos Tramujas

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai? Me fale um pouco sobre você, seu espaço e onde ele está localizado.

Foi nos primeiros anos da faculdade. Fiz Agronomia e naquela época eu já tinha interesse por plantas ornamentais. Foi numa ida ao CEAGESP de São Paulo que tive o primeiro contato e onde comprei o meu primeiro bonsai. Isso já faz mais de 25 anos, eu acho. Comprei um Pinheiro Negro que morreu logo depois porque o deixei dentro de casa. E assim foram com mais três ou quatro plantas, até que resolvi me interessar realmente pelo assunto. Naquela época era muito complicado se conseguir informações pois não tínhamos internet, revistas, amigos que faziam, além de que os poucos livros que existiam eram caros e importados. A colônia japonesa era muito fechada e ali era muito difícil se conseguir informações sobre o cultivo.

Vejo a facilidade de hoje com a internet, lojas de bonsai, cursos para iniciantes, revistas, livros…a coisa mudou muito e a arte está cada vez mais acessível a todo e qualquer tipo de pessoa.

Demonstração no primeiro encontro do Bonsai rural.

O bonsai me envolveu de tal forma que hoje vejo que mais da metade da minha vida foi dedicada a ele. Criei a Bonsai Brasil, acho que em 1996; na época foi uma referencia e um dos primeiros sites nacionais dedicados exclusivamente
ao bonsai, não somente a nível de informação aos visitantes, mas também na comercialização de plantas e acessórios.

Tive também a oportunidade de ir trabalhar na Espanha na Mistral Bonsai, acho que ainda hoje o maior viveiro de bonsai do mundo. Fiquei por lá alguns anos como editor chefe da revista espanhola Bonsai Pasion e participei de muitos eventos internacionais em diversos países como demonstrador, como repórter ou apenas com a finalidade de divulgar a revista e a Mistral.

Paulo Netto:  Abaixo a revista Mistral Bonsai, uma das melhores e mais completas revistas sobre bonsai editadas no mundo. É um orgulho ter tido um profissional e bonsaísta brasileiro, como editor de uma revista com essa qualidade de informação e gráfica. Tenho todos os exemplares e recomendo a todos que gostam de bonsai.

Na Mistral, tive a oportunidade de fazer de tudo um pouco e participar de muitos processos, tais como o de produção de campo, logística e embalagem , importação e exportação, entre outros.  Mas uma das atividades com que mais me identifiquei foi assumir a relação comercial com clubes e associações da Espanha, que hoje somam mais de 150 no total. Esta relação durou todo tempo em que estive lá e me rendeu bons amigos, com os quais mantenho contato até hoje.

Nesses anos que morei na Espanha, uma das atividades que fazíamos com frequência era caminhar pelas montanhas para apreciar Pinus, Juníperus e tantas outras espécies, em seu habitat natural. Acredito que tenha sido uma das minhas maiores lições de aprendizagem no período em que morei fora do Brasil.

Viveiros da Mistral Bonsai:

Vistas gerais do viveiro da Mistral, onde os números são todos muito impressionantes. São 60.000 metros quadrados de sombrite e estufas, e mais de 500.000 bonsais em estoque.

A criação da Bonsai do campo:

Quando voltei ao Brasil em 2005, comecei uma parceria com um dos maiores viveiros de plantas ornamentais do sul do Brasil, a Belvedere Plantas, para incrementar o seu setor de bonsai e aproveitar a matéria prima existente no viveiro para a produção de bonsai.

Mais tarde me tornei sócio do também Eng. Agrônomo, Edson Anderman, e de seu pai, que era dos antigos sócios da Belvedere. Aí nasceu uma nova empresa, a Bonsai do Campo, que está localizada em Porto Amazonas, no Paraná, a aproximadamente 80 km de Curitiba.

Trabalhamos exclusivamente na produção e comercialização de bonsai e pré bonsai. Nossos números já são bastante significativos: 100 mil plantas no campo, 35 mil prés bonsai, 12 mil bonsai… e uma rotatividade de 450 mil estacas para enraizamento.

Na conclusão do projeto da construção da nova sede teremos preparada uma área com mais de 30.000 m² com sombrites para bonsai, barracão, cisternas, estufas, área para armazenagem de pré-bonsai, etc… Pretendemos inaugurar a sede nova até o final deste ano, para quem sabe no ano que vem finalmente organizarmos o II Encontro Nacional do Bonsai Rural.

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Gosto muito das coníferas, preferencialmente os Juniperus chinensis (Shimpaku). Pelos trabalhos com madeira morta e pelo excelente contraste que se consegue com o verde das folhas, o tom avermelhado do tronco e o branco característico da madeira morta. Essa preferência talvez esteja relacionada com a oportunidade que tive de vê-los crescendo naturalmente no alto das montanhas.

Gosto também de muitas outras espécies… dos Acer, por exemplo, e das Myrtaceas em geral.

3 – Como você vê o crescimento e procura pelo bonsai hoje no Brasil?

Acho que o bonsai tem se desenvolvido bem no Brasil; muitos sites, fóruns, blogs, associações, lojas especializadas. Nesse aspecto acho que o crescimento está muito acima do que poderia imaginar a alguns anos. Às vezes sinto falta de ver um empenho maior por parte daqueles que se dedicam, mas isso também faz parte de uma evolução natural das coisas.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre eles.

No momento, Paulo, não tenho mais nenhum bonsai em casa mas, em compensação, na fazenda tenho quase 15 mil para cuidar, hahaha! Apesar de ter os meus bonsai lá também, tenho focado nos últimos anos a produção e o desenvolvimento de novas espécies para o cultivo de bonsai comercial de qualidade. Para mim se tornou um desafio ainda maior fazer uma empresa como a nossa funcionar de forma saudável. Hoje temos 25 funcionários e nos dedicamos somente ao bonsai. Não deixo nunca de selecionar um bom material para o futuro (é a famosa reserva do patrão) e sinto muita falta em trabalhar direto com as árvores e somente com exemplares especiais, mas pode acreditar que vai chegar a hora. Tudo ao seu tempo.

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Difícil escolher um estilo em particular, mas gosto muito do moyogui, do bujingi… realmente fica difícil escolher algum estilo, já que quando se tem um bom material na mão e se quer criar um bonsai de primeira qualidade, temos sempre que respeitar o que o material oferece, pois ele é que irá indicar que caminho devemos seguir.

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida?

Depois de tanto tempo, Paulo, fica até difícil falar sobre isso, porque as árvores já fazem, de uma forma ou de outra, parte da minha vida. Pode ter certeza que o bonsai não muda o caráter de ninguém, mas acho que ajuda o indivíduo a pensar, questionar e a se relacionar, porque o bonsai não é uma arte solitária. Se tentar fazer diferente, sua evolução será muito lenta e pouco produtiva.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Já conversei muito sobre isso, mas minha opinião sincera é que você é obrigado a conhecer a técnica e a noções de estética para conseguir alcançar um bom resultado. Depois, se quiser jogar tudo fora, é um direito seu, mas tem aquele ditado que diz que não se consegue quebrar uma regra se você não a conhece muito bem.

Não podemos, aqui no Brasil, querer fazer bonsai como no Japão por exemplo. A cultura é diferente, a educação é diferente, o clima é diferente, enfim, quase tudo é diferente. Como podemos querer fazer um bonsai como eles fazem? Sabe o que eu acho? Que somos privilegiados e que nosso sangue latino nos confere uma maneira singular de fazer bonsai. Acredito que em mais alguns anos o Brasil será um destaque internacional dentro da arte do bonsai, mostrando justamente isso. O caráter do bonsai brasileiro vem surgindo aos poucos e se firmando cada vez mais. Tem muita gente boa trabalhando pra isso.

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje no cenário mundial?

Muitos, mas não vou citar nomes, porque certamente estaria sendo injusto com muitos outros. Gosto sim do trabalho dos italianos, dos franceses, dos espanhóis, ou seja, dos europeus em geral. Acho que hoje a maior concentração de bons artistas está em alguns países de lá. Eles estão em um estágio que pouco a pouco começamos a chegar. É saber estudar, praticar, respeitar as regras, os japoneses e seus trabalhos, mas fazer o bonsai da maneira deles aproveitando o material que eles em possuem em sua região. No Brasil, pelo fato de vivermos num clima praticamente tropical, não chegaremos a ter a fartura de yamadoris a que eles têm acesso. No entanto, de uns anos pra cá começaram a surgir excelentes árvores, principalmente do nordeste e que vem sendo trabalhadas por pessoas que já seguiram este caminho. No meu ponto de vista esse é o verdadeiro caráter do bonsai do Brasil.

Visita ao viveiro de Hidaka San em 1998. Fonte contínua de inspiração.

Com Jiro Mizuno em sua casa em santo André, São Paulo. Acho que essa foto é de 1987 e me trás boas lembranças de como tudo começou. Sr. Jiro Mizuno foi uma pessoa muito especial em minha vida.

9- Que perfil de pessoas hoje buscam aprender a arte do bonsai no Brasil?

O bonsai encanta a todos, Paulo. Dificilmente uma pessoa irá passar indiferente por uma boa exposição com belos exemplares. Isso, talvez, pelo fato de que a árvore em si é um dos arquétipos do ser humano. Não existe padrão e nem pré-requisito para a pessoa se envolver com a arte. Nos meus anos de vivencia com o bonsai, já vi todos os tipos de pessoas; de empresários importantes a simples pedreiros e de crianças a idosos se deixarem se levar pela arte. Vi muita gente dar continuidade, mas também vi muita gente desistir em pouco tempo. No bonsai não basta ter talento e inspiração, existem alguns conceitos que tem que ser adquiridos com o tempo como, por exemplo, a disciplina e a perseverança, já que sem eles você não consegue chegar a lugar nenhum. Por outro lado, apesar de existir a questão do cultivo propriamente dito, que envolve técnicas agriculturáveis como a rega, adubação, pulverização, tipos diferentes de substrato, etc, não existe um pré-requisito básico para se iniciar na arte; você não precisa ser agrônomo, biólogo ou ter qualquer tipo de formação na área. Muito pelo contrario, essas técnicas de cultivo, em muitos casos, exercem sobre os leigos no assunto um grande fascínio. Entender como as árvores crescem e se desenvolvem, e como elas reagem as diferentes técnicas que aplicamos, é realmente emocionante.

Bosques de coníferas no viveiro de Paul Lesnievicz

10- O que você acha que as pessoas podem encontrar na arte do bonsai que as ajude tanto no trabalho como na sua vida pessoal?

Como o bonsai é uma arte viva, o seu desenvolvimento depende de muitos fatores, e o controle desses fatores, sem dúvida, traz um sentimento de satisfação muito grande. Você poder admirar sua árvore crescendo bonita e saudável, produzindo flores e frutos, mostrando as mudanças de estação, é que faz com que as pessoas se envolvam com mais profundidade na arte do bonsai. Sem falar do aspecto artístico, onde o bonsaísta pode acompanhar o desenvolvimento de sua árvore caminhando lentamente para um projeto que foi idealizado muitas vezes há décadas atrás. É pura emoção.

11- Qual erro você acha mais comum nos iniciantes quando começam a se dedicar ao cultivo do bonsai?

Você bem sabe que muitas pessoas que compram um bonsai ou ganham um bonsai não conseguem sequer podar a sua árvore uma única vez. Eles simplesmente não conseguem passar da fase inicial e mais importante de todas, que é manter sua pequena árvore viva. Ainda bem que no Brasil as coisas já começaram a mudar, e cada vez mais as pessoas se dão conta de que o problema na maioria das vezes não está no bonsai, mas sim nelas mesmas. É triste ouvir falar que o bonsai é delicado demais, que morre à toa, que é impossível ser cultivado por um simples mortal, que é perda de tempo, complicado de cuidar e outras coisas desse tipo. Esses argumentos sempre fizeram parte da minha vida, mas como comentei anteriormente, as coisas estão mudando e cada vez mais se ouve falar: eu não reguei direito, eu viajei alguns dias e a planta ficou sozinha, eu deixei minha planta num ambiente fechado. Isso é sinal de que as pessoas já estão compreendendo a realidade do bonsai. Que não é enfeite, que não pode ficar em qualquer lugar, que é um ser vivo e que tem que ser tratado com uma árvore. Acho que a maior dificuldade para quem está iniciando na arte é não conseguir fazer o casamento necessário e imprescindível entre o cultivo e a parte estética. Entender que para se aplicar qualquer técnica na árvore, esta precisa estar forte e saudável e que devemos primeiro aprender a cultivar e compreender as necessidades da árvore, para somente depois iniciarmos a sua modelagem.

Demonstração no Bonsai Centrum Heidelberg na Alemanha em 1995. Com Horst Krekeler e Roberto Gerpe

12 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

O primeiro deles é procurar um produtor idôneo para adquirir suas primeiras árvores e solicitar informações ou algum tipo de manual que indique pelo menos as técnicas básicas de cultivo, como ambiente adequado e rega. Antes de comprar a planta, comentar com o vendedor o local onde você pretende deixar o bonsai, pois nesse momento ele poderá indicar uma espécie que se desenvolva melhor no ambiente que você pretende cultivá-la. Evitar começar com bonsai muito pequenos, pois estes são mais difíceis de cuidar. Quanto menor o tamanho do vaso e a quantidade de substrato, mais difícil vai ser controlar as regas e não podemos esquecer que mais de 90% dos bonsais que morrem são justamente por falta de água. Se você está realmente interessado no bonsai, nunca tenha apenas uma planta, o ideal é ter pelo menos três ou quatro e de espécies diferentes para acompanhar o crescimento e poder avaliar melhor as dificuldades no cultivo.

Não desista com as primeiras dificuldades, lembre-se que a perseverança faz parte do negócio.

13 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetize nossa arte.

“O bonsai, além de ser uma arte, pode se tornar uma filosofia de vida”

Paulo Netto:  Um produto que também foi criado por Carlos Tramujas e que pode ajudar você que está começando a se interessar pela arte do bonsai. É o seu video com os fundamentos básicos e introdução ao Bonsai.

Contatos de Carlos Tramujas:

tramujas5@gmail.com

ctramujas@onda.com.br

Evento com Carlos Tramujas:

8 Respostas to “Entrevista com Carlos Tramujas”

  1. Tive a oportunidade de conhecer este Mestre na arte, em Campinas, há uns 6 meses. Pessoa simples, profundo conhecedor da arte, e com uma didática em passar o conhecimento que possui, que poucos conseguem!! Parabéns por mais essa entrevista, Paulo!! Tramujas, um grande abraço!

  2. chaddadbonsai Says:

    Tive o prazer de conhecer o Carlos Tramujas no III Encontro Nacional em Mandaguari, e sempre o admirei na sua experiência internacionalizada. Na verdade ele pertence ao mundo globalizado do bonsai, não virtual mas material, sendo nesse aspecto um ícone nacional.
    Segue um “apostolado” que ele divulga com serenidade, a mesma que ele tem quando conversa conosco no canto da sala, ou que um médium tem com um espirito. Com ele tudo é ensinamento, calma e prática. É como aquele treinador que corre junto com o atleta, que se preciso compartilha a própria toalha.

    Quando conversamos sobre o sumiço de plantas do Hidaka ele me disse:
    Se alguém lhe roubar um bonsai dê mais um a ele.
    Grande abraço Mestre.

  3. Bom dia

    No ano de 2000/2001, tive a oportunidade de participar de um curso de um dia, quando ainda era BONSAI BRSIL, no bairro Cabral em Curitiba.
    Tive uns vinte BONSAI, tive alguns problemas e tive que parar, mais não vejo a hora de voltar a fazer alguma coisa, parece um vício, toda planta que vejo fico imaginado nela um BONSAI.
    Fiquei muito satisfeito de saber que ainda esta no ramo.

    Um Grande abraço.

    Jairo Fontanella

    Pelo pouco que conheço a respeito, minha opinião é: como se diz na GIRIA, este é o CARA, pra mim, simplesmente o melhor no Brasil e porque não dizer o melhor por onde passou.

  4. amo a minha jabuticabera

  5. Essy Yuki Wang Suzuki Says:

    Foi muito bom ter conhecido o viveiro da Belverde em Porto Amazonas.Espero poder voltar novamente. Adorei!

  6. Deolinda Lima Rezende Says:

    Querido mestre Tramujas,gostei muito de ler sua entrevista!!!

  7. Obrigado por visitar o blog Deolinda, abraço.

  8. Grande amigo e um exemplo de pessoa, tenho o privilégio de conhecê-lo e visitar o seu viveiro!

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