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Entrevista com Luis Fernando Nickfury

Posted in Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , on 24 d e julho d e 2012 by aidobonsai

Mais uma entrevista com um amigo que me deu a oportunidade de visitar sua casa e conhecer seu espaço em Brasília. Luis Fernando Nickfury é um apaixonado pela nossa arte,  e isso se retrata no seu trabalho cultivando bonsai. Tive a oportunidade de conhecer um pouco das árvores do cerrado e de observar seu trabalho aprimorado em um estilo que eu acho muito interessante, o Ishitsuki, (Raíz sobre rocha).  Aqui o meu agradecimento por ter me recebido e ter dividido suas experiências, muito obrigado.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar arte do Bonsai ?

R- Há uns 15 anos, aproximadamente, lendo revistas antigas de bonsai publicadas no país, isso despertou meu interesse pela arte, passando então a tentar formar algo que fosse ao menos parecido com o que via naquelas publicações. Inicialmente, tentei adaptar as plantas que julgava mais simples e fáceis de lidar, como as nativas Jabuticabeira e Pitangueira, passando ainda pelo Fícus benjamina e Duranta repens (pingo de ouro).

Pitangueira (Estilo Literati)

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar ?

R – Atualmente em meu viveiro cultivo variadas espécies, tanto nativas quanto alienígenas, sendo as minhas prediletas o Acer burgerianum, conhecido por Acer tridente, e a Serissa foetida chinesa.

Serrisa foetida       Mame  (altura 6cm)

3- Quais espécies melhores para o clima de Brasília?

R – De uma maneira geral, as melhores são as nativas, como as diversas variedades da Caliandra, a Jabuticabeira, a Pitangueira, o Pithecolobium tortus. Mas, igualmente, podemos também cultivar com sucesso todas as variedades do Ficus, bem como Piracantha, Carmona, Celtis, Resedá, Serissa, Aceroleira, Pinheiro negro e vermelho, dentre outras.

4- Quais espécies nativas do cerrado , podem ser modeladas para o cultivo do Bonsai?

R – A mais conhecida é a Mirindiba (Lafoensia Glyptocarpa), mas cultiváveis ainda o Ipê, o Jacarandá, Murici, Pau d’alho, Copaíba, Aroeira pimenteira, Uruvalha, etc.

Abaixo Penjing realizado em encontro do grupo de trabalho do Fernando com Serissas foetidas cultivadas em seu viveiro.

Fiquei encantado com esse Penjing de Serissas foetidas, a qualidade das árvores usadas nele, deram uma perpectiva e profundidade incríveis.

Eu sempre digo que o Penjing antes de mais nada deve se destacar pela qualidade de suas árvores e pela escala usada nas pedras e complementos, como pontes, figuras etc.

As diferenças de altura e a poda de patamares bem destacados, são uma característica dos bonsais utilizados no trabalho.

No lado esquerdo da paisagem as earvores seguindo na mesma direção e curvaturas, dão uma naturalidade e um movimento muito bonito ao conjunto.

Foi usado um Suiban de mármore para o conjunto. O Fernando com apoda de refinamento compacta bem a copa da Serrisa foetida e ela fica mais bonita.

5 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região, mais as circustâncias de clima e adaptação não permitem ?

R – Sem titubear, o Pinheiro branco, chamado pelos japoneses de Goyomatsu. (Pinus Pentaphylla).

Goyomatsu  (Japanese white pine) tree from Kandaka Shojuen bonsai garden.

Goyomatsu  (Bonsai museum)

6 – Dos seus trabalhos qual você destaca com um carinho especial. Fale um pouco sobre ele.

R – Pesquisando em sites e revistas japoneses, descobri o estilo Ishitsuki, que eles nomeiam os trabalhos formados com plantas e pedras. Despertou minha curiosidade e aguçou minha vontade de ter exemplares como os deles, todos formados com Acer burgerianum, ou Acer tridente, que os japoneses chamam de kaede. Desde então, nos últimos 8 anos, venho cultivando novas mudas nesse estilo, tenho algumas plantas quase prontas quanto à fusão de suas raízes com pedras, mas que ainda faltam formar a estruturação aérea, algo mais complexo nessa espécie e que irá levar ainda alguns anos mais para um resultado satisfatório.

Na Serissa foetida abaixo, Fernando começou o trabalho com uma pedra coletada em um rio. A pedra possuía um furo que ia de um lado a outro. Ele aproveitou e cultivou suas raízes, atravessando a perfuração da rocha.

Piracanta Coccinea

Detalhe das raízes atravessando a pedra.

Mais um trabalho destacando o estilo preferido de Fernado o Raíz sobre Rocha, Ishitsuki

Repare que a raíz desee pela fenda natural da rocha até a sua base.

7 – Você segue alguma escola ou estilo nas suas criações?

R – Eu procuro sempre me guiar pela escola clássica japonesa, muito embora muita coisa tenha mudado ao longo desses anos todos, então também me pauto pela atualização, tanto dos estilos quanto da maneira de formatar corretamente um bonsai.

Viburno

7B – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

R – Aprecio dois estilos, que são o Kengai e o Ishitsuki, composição que agrega pedra e planta, ambos têm variações interessantes, o que possibilita um resultado surpreendente e bonito, quando finalizados. Pithecolobium tortum, ainda em fase de refinamento.

Estilo Kengai (Cascata)

8 – O que a arte do bonsai agregou na sua vida?

R – O mais importante: ótimas e valiosas amizades, no DF, no Brasil e até no exterior.

Piracanta Coccinea

9 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

R – As ordens técnicas e estéticas são prevalentes num bonsai, qualquer que seja ele, mas certamente podemos e devemos ser flexíveis quanto à possibilidade de buscarmos, cada vez mais, formatos livres, que permitam exploração artística maior. Todavia, não poderemos jamais sacrificar o tecnicismo por uma abstração totalitária, ainda que reduzamos bastante a limitação criada pelas normas. Acredito num meio termo, entre esses dois limites, e que todos nós, bonsaistas, deveremos sempre conhecer a fundo as técnicas e regras, antes de tentar avançar dentro da criação livre. Ou seja, para quebrar uma regra, é preciso, antes, conhecer a regra.

10 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje no cenário mundial?

R – David Benavente, espanhol, é um grande nome, que merece meu respeito. Outro grande expoente, Masahiko Kimura, é sem duvida um dos nomes mais constantemente divulgados, por ser o precursor de inovações técnicas audaciosas quanto ao trabalho de formação de um bonsai de qualidade técnica superior. Admiro e estudo ainda o trabalho de: Kevin Wilson, Imai Chiaru, Sebastian Fernandes, John Yoshio Naka, Mario Komsta, Cheng Cheng Kung, Toni Payeras, Min Hsuan Lo, Robert Steven, dentre outros mais.

Rhus Sucedânea

11- Hoje é mais fácil começar a se dedicar a criação de bonsais? Quais eram as maiores dificuldades no início?

R – Sem duvida, atualmente temos à nossa disposição maiores facilidades quanto ao bonsai, seja no que toca a aquisição de novas e variadas espécies, ou mesmo antigas, bem como de vasos confeccionados no país, por grandes e excelentes artesãos ceramistas, e também pela facilidade em adquirir material didático sério e de qualidade, como revistas especializadas, citando duas espanholas, a Bonsai Actual e a Bonsai Pasion, além das sempre ótimas revistas japonesas Bonsai Sekai e Kinbon. Há também diversos livros, a maioria editados em idiomas estrangeiros, mas outros nacionais, que visam atender um segmento priorizando os iniciantes, como podemos atestar com publicações dos autores Mario Garcia Leal e Vania Fortes. Antigamente, porém, a dificuldade em conseguir bons livros, revistas e vasos era grande, e apenas uns poucos privilegiados tinham acesso a esse material. Ferramentas especiais e de qualidade, tanto japonesas quanto americanas e europeias também é algo que hoje em dia compramos por preços muito inferiores ao que foi pago no passado.

Pinheiro negro

12- Qual a sua percepção hoje da arte do bonsai no Brasil?  Você acha que teve um crescimento?  Há uma maior projeção dos nossos artistas no cenário mundial?

R – Desde há alguns anos nomes do bonsai nacional vem conseguindo estabelecer, lá fora, novas fronteiras, sendo o mais festejado o bonsaista Carlos Tramujas, que inclusive esteve a frente durante alguns anos da prestigiada publicação que citei, Bonsai Pasion, quando trabalhava para a empresa espanhola Mistral Bonsai. Outros nomes seriam os da bonsaista Regina Suzuki, Marcelo Martins, que teve plantas suas premiadas em concursos virtuais, e, mais recentemente, o grande incentivador do bonsai nacional, Mario Garcia Leal, que acompanhado por seu fiel escudeiro, o grande amigo Bergson Vasconcelos, vem há alguns anos participando de grandes eventos de bonsai na Europa e Africa, onde tem divulgado o nome e a qualidade do trabalho do bonsai nacional.

Pinheiro negro

13- Como está o crescimento do bonsai em brasília, que bonsaísta (s) você destaca pelo seu trabalho.

R – Brasilia, atualmente, não apresenta o mesmo crescimento que observamos ocorrer em outros locais, como esteve no passado. Há bonsaistas espalhados por quase todas as cidades do DF, mas infelizmente não temos atualmente nenhum ponto relevante de encontro, embora vez ou outra eu promova alguma reunião ou exposição, contando com amigos pertencentes a nossa Associação, criada em 2004, que tem apenas sede virtual: http://www.brasiliabonsaiclube.com

Um clube de amigos unidos pela arte do Bonsai.

Há, inclusive, um comércio relativamente fértil e até forte na cidade, desenvolvido pela amiga Jô Ribeiro, que participa ativamente em feiras, shoppings e outros eventos correlatos, onde sempre leva bonsai para vender, algumas peças adquiridas de cultivadores brasilienses, ombreando com outras, trazidas de outras partes do país. Embora o comércio desperte interesse e haja muitas pessoas que compram suas plantas, essas mesmas pessoas não buscam interação com nosso clube, nem procuram contato com nossos associados, no intuito de interagir conosco, de forma que não sei, com certeza, quantos cultivadores há, atualmente, no DF. Nesse cenário, porém, ouso referenciar o nobre amigo Francisco Lustosa, bonsaista há mais de vinte anos, que apresenta um trabalho de vanguarda e inovador, ao mesmo tempo, com plantas magnificamente trabalhados e formatados por ele dentro de parâmetros estéticos e visuais que não perdem em beleza para nenhum outro trabalho de grandes mestres, nacionais ou internacionais.

Fernando tem toda razão, o trabalho do Francisco Lustosa é de muita criatividade, especialmente os bonsais criados com madeira morta, eles são muito especiais.  Abaixo 3 trabalhos de Francisco Lustosa.  Mês que vem vou publicar sua entrevista, e terei o prazer de fotografar pessoalmente sua coleção para o blog, aguardem !

Estudo de movimento:

Buxinho ainda em fase de estudo de movimento, mas que mostra um trabalho estético lindo. O Fernando colocou a planta na pedra para que eu pudesse fotografar. Vou tentar sempre publicar o acompanhamento deste trabalho.

14 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar a arte do Bonsai.

R – Minha sugestão é que o iniciante busque primeiramente o conhecimento contido em livros, revistas, fóruns de discussão, sites e links da internet. Munido do conhecimento assim adquirido, que busque o mais rápido possível participar de algum curso, seja básico, intermediário e avançado, ou todos ao mesmo tempo, bem como vise participar de eventos, workshops, exposições, onde irá ter contato com ótimos professores, ver lindos trabalhos (que sempre servem de modelo) e carrear novas amizades, angariando bons amigos com que interagir e crescer na arte bonsai.

Mames de Serissa foetida

15- Quais atributos o bonsaísta deve ter para conseguir um bom resultado nos seus trabalhos ?

R – O primeiro e mais divulgado é a paciência. Sem pressa, podemos obter ótimos resultados no que tange ao cultivo e formação de um bonsai, obtendo resultados bem mais satisfatórios. Ainda, persistência, pois dificuldades sempre haverá e, superando-as, renovaremos nossa capacidade e vontade de continuar investindo em algo que, ao cabo e afinal, só nos trará prazer e alegrias, tanto na forma de termos lindos bonsai, quanto na possibilidade de angariar novos e valiosos amigos nesse caminho.

Caliandra seloi

16- Quais os benefícios físicos, mentais que podemos encontrar se dedicando a arte do bonsai?

R – O estresse cotidiano, diário, que todos nós sofremos vez ou outra, pode ser o primeiro mal a ser combatido com a prática constante da nossa arte bonsai. Além disso, a arte bonsai é uma forma de desenvolvermos nossa criatividade, de liberar nossas forças e ficarmos em sintonia com a natureza que nos cerca, carreando beleza aos nossos olhos, e satisfação pessoal, pela excelência dos resultados que obtemos com nosso trabalho e labor nesse hobby sempre apaixonante.

17 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

R – A compreensão da arte bonsai libera a energia criativa que existe em nós.

Abaixo uma serie de fotos de trabalhos que estão sendo desenvolvidos no estilo Ishitsuki   (Raiz sobre Rocha)


Link do Bonsai clube em Brasília :   http://www.brasiliabonsaiclube.com/

Entre na galeria e veja mais trabalhos de Fernando Nickfury:

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Entrevista com Carlos Tramujas

Posted in Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , on 15 d e abril d e 2012 by aidobonsai

Tenho muito orgulho de publicar aqui no blog a  entrevista do meu mestre Carlos Tramujas. Foi em 1998, em Niterói, que fiz um curso com Carlos Tramujas, na casa de um grande amigo e mentor no bonsai Jorge Antonio. Embora já me dedicasse à arte a 8 anos, foi no curso com Carlos Tramujas que meus olhos abriram para a importância da triangulação, a busca da paciência e a ordem correta de executar as etapas básicas na criação do bonsai.

Quero agradecer o tempo que ele dedicou a entrevista, pois sei que ele tem pouco tempo disponível e milharem de filhas para cuidar.  Obrigado mestre Carlos Tramujas. 

O Caminho de Carlos Tramujas

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai? Me fale um pouco sobre você, seu espaço e onde ele está localizado.

Foi nos primeiros anos da faculdade. Fiz Agronomia e naquela época eu já tinha interesse por plantas ornamentais. Foi numa ida ao CEAGESP de São Paulo que tive o primeiro contato e onde comprei o meu primeiro bonsai. Isso já faz mais de 25 anos, eu acho. Comprei um Pinheiro Negro que morreu logo depois porque o deixei dentro de casa. E assim foram com mais três ou quatro plantas, até que resolvi me interessar realmente pelo assunto. Naquela época era muito complicado se conseguir informações pois não tínhamos internet, revistas, amigos que faziam, além de que os poucos livros que existiam eram caros e importados. A colônia japonesa era muito fechada e ali era muito difícil se conseguir informações sobre o cultivo.

Vejo a facilidade de hoje com a internet, lojas de bonsai, cursos para iniciantes, revistas, livros…a coisa mudou muito e a arte está cada vez mais acessível a todo e qualquer tipo de pessoa.

Demonstração no primeiro encontro do Bonsai rural.

O bonsai me envolveu de tal forma que hoje vejo que mais da metade da minha vida foi dedicada a ele. Criei a Bonsai Brasil, acho que em 1996; na época foi uma referencia e um dos primeiros sites nacionais dedicados exclusivamente
ao bonsai, não somente a nível de informação aos visitantes, mas também na comercialização de plantas e acessórios.

Tive também a oportunidade de ir trabalhar na Espanha na Mistral Bonsai, acho que ainda hoje o maior viveiro de bonsai do mundo. Fiquei por lá alguns anos como editor chefe da revista espanhola Bonsai Pasion e participei de muitos eventos internacionais em diversos países como demonstrador, como repórter ou apenas com a finalidade de divulgar a revista e a Mistral.

Paulo Netto:  Abaixo a revista Mistral Bonsai, uma das melhores e mais completas revistas sobre bonsai editadas no mundo. É um orgulho ter tido um profissional e bonsaísta brasileiro, como editor de uma revista com essa qualidade de informação e gráfica. Tenho todos os exemplares e recomendo a todos que gostam de bonsai.

Na Mistral, tive a oportunidade de fazer de tudo um pouco e participar de muitos processos, tais como o de produção de campo, logística e embalagem , importação e exportação, entre outros.  Mas uma das atividades com que mais me identifiquei foi assumir a relação comercial com clubes e associações da Espanha, que hoje somam mais de 150 no total. Esta relação durou todo tempo em que estive lá e me rendeu bons amigos, com os quais mantenho contato até hoje.

Nesses anos que morei na Espanha, uma das atividades que fazíamos com frequência era caminhar pelas montanhas para apreciar Pinus, Juníperus e tantas outras espécies, em seu habitat natural. Acredito que tenha sido uma das minhas maiores lições de aprendizagem no período em que morei fora do Brasil.

Viveiros da Mistral Bonsai:

Vistas gerais do viveiro da Mistral, onde os números são todos muito impressionantes. São 60.000 metros quadrados de sombrite e estufas, e mais de 500.000 bonsais em estoque.

A criação da Bonsai do campo:

Quando voltei ao Brasil em 2005, comecei uma parceria com um dos maiores viveiros de plantas ornamentais do sul do Brasil, a Belvedere Plantas, para incrementar o seu setor de bonsai e aproveitar a matéria prima existente no viveiro para a produção de bonsai.

Mais tarde me tornei sócio do também Eng. Agrônomo, Edson Anderman, e de seu pai, que era dos antigos sócios da Belvedere. Aí nasceu uma nova empresa, a Bonsai do Campo, que está localizada em Porto Amazonas, no Paraná, a aproximadamente 80 km de Curitiba.

Trabalhamos exclusivamente na produção e comercialização de bonsai e pré bonsai. Nossos números já são bastante significativos: 100 mil plantas no campo, 35 mil prés bonsai, 12 mil bonsai… e uma rotatividade de 450 mil estacas para enraizamento.

Na conclusão do projeto da construção da nova sede teremos preparada uma área com mais de 30.000 m² com sombrites para bonsai, barracão, cisternas, estufas, área para armazenagem de pré-bonsai, etc… Pretendemos inaugurar a sede nova até o final deste ano, para quem sabe no ano que vem finalmente organizarmos o II Encontro Nacional do Bonsai Rural.

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Gosto muito das coníferas, preferencialmente os Juniperus chinensis (Shimpaku). Pelos trabalhos com madeira morta e pelo excelente contraste que se consegue com o verde das folhas, o tom avermelhado do tronco e o branco característico da madeira morta. Essa preferência talvez esteja relacionada com a oportunidade que tive de vê-los crescendo naturalmente no alto das montanhas.

Gosto também de muitas outras espécies… dos Acer, por exemplo, e das Myrtaceas em geral.

3 – Como você vê o crescimento e procura pelo bonsai hoje no Brasil?

Acho que o bonsai tem se desenvolvido bem no Brasil; muitos sites, fóruns, blogs, associações, lojas especializadas. Nesse aspecto acho que o crescimento está muito acima do que poderia imaginar a alguns anos. Às vezes sinto falta de ver um empenho maior por parte daqueles que se dedicam, mas isso também faz parte de uma evolução natural das coisas.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre eles.

No momento, Paulo, não tenho mais nenhum bonsai em casa mas, em compensação, na fazenda tenho quase 15 mil para cuidar, hahaha! Apesar de ter os meus bonsai lá também, tenho focado nos últimos anos a produção e o desenvolvimento de novas espécies para o cultivo de bonsai comercial de qualidade. Para mim se tornou um desafio ainda maior fazer uma empresa como a nossa funcionar de forma saudável. Hoje temos 25 funcionários e nos dedicamos somente ao bonsai. Não deixo nunca de selecionar um bom material para o futuro (é a famosa reserva do patrão) e sinto muita falta em trabalhar direto com as árvores e somente com exemplares especiais, mas pode acreditar que vai chegar a hora. Tudo ao seu tempo.

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Difícil escolher um estilo em particular, mas gosto muito do moyogui, do bujingi… realmente fica difícil escolher algum estilo, já que quando se tem um bom material na mão e se quer criar um bonsai de primeira qualidade, temos sempre que respeitar o que o material oferece, pois ele é que irá indicar que caminho devemos seguir.

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida?

Depois de tanto tempo, Paulo, fica até difícil falar sobre isso, porque as árvores já fazem, de uma forma ou de outra, parte da minha vida. Pode ter certeza que o bonsai não muda o caráter de ninguém, mas acho que ajuda o indivíduo a pensar, questionar e a se relacionar, porque o bonsai não é uma arte solitária. Se tentar fazer diferente, sua evolução será muito lenta e pouco produtiva.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Já conversei muito sobre isso, mas minha opinião sincera é que você é obrigado a conhecer a técnica e a noções de estética para conseguir alcançar um bom resultado. Depois, se quiser jogar tudo fora, é um direito seu, mas tem aquele ditado que diz que não se consegue quebrar uma regra se você não a conhece muito bem.

Não podemos, aqui no Brasil, querer fazer bonsai como no Japão por exemplo. A cultura é diferente, a educação é diferente, o clima é diferente, enfim, quase tudo é diferente. Como podemos querer fazer um bonsai como eles fazem? Sabe o que eu acho? Que somos privilegiados e que nosso sangue latino nos confere uma maneira singular de fazer bonsai. Acredito que em mais alguns anos o Brasil será um destaque internacional dentro da arte do bonsai, mostrando justamente isso. O caráter do bonsai brasileiro vem surgindo aos poucos e se firmando cada vez mais. Tem muita gente boa trabalhando pra isso.

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje no cenário mundial?

Muitos, mas não vou citar nomes, porque certamente estaria sendo injusto com muitos outros. Gosto sim do trabalho dos italianos, dos franceses, dos espanhóis, ou seja, dos europeus em geral. Acho que hoje a maior concentração de bons artistas está em alguns países de lá. Eles estão em um estágio que pouco a pouco começamos a chegar. É saber estudar, praticar, respeitar as regras, os japoneses e seus trabalhos, mas fazer o bonsai da maneira deles aproveitando o material que eles em possuem em sua região. No Brasil, pelo fato de vivermos num clima praticamente tropical, não chegaremos a ter a fartura de yamadoris a que eles têm acesso. No entanto, de uns anos pra cá começaram a surgir excelentes árvores, principalmente do nordeste e que vem sendo trabalhadas por pessoas que já seguiram este caminho. No meu ponto de vista esse é o verdadeiro caráter do bonsai do Brasil.

Visita ao viveiro de Hidaka San em 1998. Fonte contínua de inspiração.

Com Jiro Mizuno em sua casa em santo André, São Paulo. Acho que essa foto é de 1987 e me trás boas lembranças de como tudo começou. Sr. Jiro Mizuno foi uma pessoa muito especial em minha vida.

9- Que perfil de pessoas hoje buscam aprender a arte do bonsai no Brasil?

O bonsai encanta a todos, Paulo. Dificilmente uma pessoa irá passar indiferente por uma boa exposição com belos exemplares. Isso, talvez, pelo fato de que a árvore em si é um dos arquétipos do ser humano. Não existe padrão e nem pré-requisito para a pessoa se envolver com a arte. Nos meus anos de vivencia com o bonsai, já vi todos os tipos de pessoas; de empresários importantes a simples pedreiros e de crianças a idosos se deixarem se levar pela arte. Vi muita gente dar continuidade, mas também vi muita gente desistir em pouco tempo. No bonsai não basta ter talento e inspiração, existem alguns conceitos que tem que ser adquiridos com o tempo como, por exemplo, a disciplina e a perseverança, já que sem eles você não consegue chegar a lugar nenhum. Por outro lado, apesar de existir a questão do cultivo propriamente dito, que envolve técnicas agriculturáveis como a rega, adubação, pulverização, tipos diferentes de substrato, etc, não existe um pré-requisito básico para se iniciar na arte; você não precisa ser agrônomo, biólogo ou ter qualquer tipo de formação na área. Muito pelo contrario, essas técnicas de cultivo, em muitos casos, exercem sobre os leigos no assunto um grande fascínio. Entender como as árvores crescem e se desenvolvem, e como elas reagem as diferentes técnicas que aplicamos, é realmente emocionante.

Bosques de coníferas no viveiro de Paul Lesnievicz

10- O que você acha que as pessoas podem encontrar na arte do bonsai que as ajude tanto no trabalho como na sua vida pessoal?

Como o bonsai é uma arte viva, o seu desenvolvimento depende de muitos fatores, e o controle desses fatores, sem dúvida, traz um sentimento de satisfação muito grande. Você poder admirar sua árvore crescendo bonita e saudável, produzindo flores e frutos, mostrando as mudanças de estação, é que faz com que as pessoas se envolvam com mais profundidade na arte do bonsai. Sem falar do aspecto artístico, onde o bonsaísta pode acompanhar o desenvolvimento de sua árvore caminhando lentamente para um projeto que foi idealizado muitas vezes há décadas atrás. É pura emoção.

11- Qual erro você acha mais comum nos iniciantes quando começam a se dedicar ao cultivo do bonsai?

Você bem sabe que muitas pessoas que compram um bonsai ou ganham um bonsai não conseguem sequer podar a sua árvore uma única vez. Eles simplesmente não conseguem passar da fase inicial e mais importante de todas, que é manter sua pequena árvore viva. Ainda bem que no Brasil as coisas já começaram a mudar, e cada vez mais as pessoas se dão conta de que o problema na maioria das vezes não está no bonsai, mas sim nelas mesmas. É triste ouvir falar que o bonsai é delicado demais, que morre à toa, que é impossível ser cultivado por um simples mortal, que é perda de tempo, complicado de cuidar e outras coisas desse tipo. Esses argumentos sempre fizeram parte da minha vida, mas como comentei anteriormente, as coisas estão mudando e cada vez mais se ouve falar: eu não reguei direito, eu viajei alguns dias e a planta ficou sozinha, eu deixei minha planta num ambiente fechado. Isso é sinal de que as pessoas já estão compreendendo a realidade do bonsai. Que não é enfeite, que não pode ficar em qualquer lugar, que é um ser vivo e que tem que ser tratado com uma árvore. Acho que a maior dificuldade para quem está iniciando na arte é não conseguir fazer o casamento necessário e imprescindível entre o cultivo e a parte estética. Entender que para se aplicar qualquer técnica na árvore, esta precisa estar forte e saudável e que devemos primeiro aprender a cultivar e compreender as necessidades da árvore, para somente depois iniciarmos a sua modelagem.

Demonstração no Bonsai Centrum Heidelberg na Alemanha em 1995. Com Horst Krekeler e Roberto Gerpe

12 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

O primeiro deles é procurar um produtor idôneo para adquirir suas primeiras árvores e solicitar informações ou algum tipo de manual que indique pelo menos as técnicas básicas de cultivo, como ambiente adequado e rega. Antes de comprar a planta, comentar com o vendedor o local onde você pretende deixar o bonsai, pois nesse momento ele poderá indicar uma espécie que se desenvolva melhor no ambiente que você pretende cultivá-la. Evitar começar com bonsai muito pequenos, pois estes são mais difíceis de cuidar. Quanto menor o tamanho do vaso e a quantidade de substrato, mais difícil vai ser controlar as regas e não podemos esquecer que mais de 90% dos bonsais que morrem são justamente por falta de água. Se você está realmente interessado no bonsai, nunca tenha apenas uma planta, o ideal é ter pelo menos três ou quatro e de espécies diferentes para acompanhar o crescimento e poder avaliar melhor as dificuldades no cultivo.

Não desista com as primeiras dificuldades, lembre-se que a perseverança faz parte do negócio.

13 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetize nossa arte.

“O bonsai, além de ser uma arte, pode se tornar uma filosofia de vida”

Paulo Netto:  Um produto que também foi criado por Carlos Tramujas e que pode ajudar você que está começando a se interessar pela arte do bonsai. É o seu video com os fundamentos básicos e introdução ao Bonsai.

Contatos de Carlos Tramujas:

tramujas5@gmail.com

ctramujas@onda.com.br

Evento com Carlos Tramujas:

Entrevista com Marcelo Martins

Posted in Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , on 8 d e abril d e 2012 by aidobonsai

Quando penso em um trabalho sério em bonsai, utilizando a espécie Pithecolobium torthum, de imediato vem o nome do artista Marcelo Martins. O movimento, acabamento e originalidade de seus bonsais é impressionante. Fico muito feliz de publicar aqui uma entrevista com Marcelo e poder ter no blog um pouco da sua arte. Agradeço aqui o tempo e a disponibilidade de responder a entrevista. Grande abraço.

Todos os contatos de Marcelo Martins (Marcelo Yamadori) estão no final da entrevista.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai?

O meu interesse pela arte do bonsai surgiu no início dos anos 90. Eu cresci em Cabo Frio, Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro. A vegetação característica da região é a restinga, que eu costumava percorrer desde pequeno. A associação do bonsai com as plantas nativas foi imediata, desde o início focado na busca de uma expressão nativa e com identidade própria.

2 – Que espécies você mais gosta de trabalhar?

Eu cultivo poucas variedades. Além do pitecolobium, tenho um ipê amarelo e uma schefflera, todas de lida fácil. Naturalmente que, por toda a atividade que se desenvolveu em torno do yamadori de pitecolobium, a relação com essa espécie é muito mais próxima e afinada do que com as outras espécies.

3 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região, mas as circunstâncias de clima e adaptação não permitem?

Eu me sinto abastado trabalhando com as minhas plantas nativas (e ainda tem muito material de qualidade para ser trabalhado no Brasil), mas gostaria de experimentar coletar e cultivar um junípero daqueles esculturais num lugar extremo, como o deserto de Mojave, na Califórnia, por exemplo. Um sonho bom.

Abaixo um bonsai do Marcelo que eu acho singular, pois desta espécie “Xeflera”  acho que é o mais bonito que já vi.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Muito difícil definir isso. São todas criações minhas, cada uma com sua expressão particular de beleza e, como arte viva, cada uma com os seus momentos particulares de esplendor.

Mas é claro que alguns trabalhos acabam se destacando, por esse ou aquele motivo. O kengai de ipê amarelo, um dos meus primeiros trabalhos, pelo efeito estético do movimento do seu tronco e harmonia com o vaso; o dragão, verdadeira escultura viva; e atualmente a planta que mais tem se destacado é um pitecolobium de troncos múltiplos plantado em uma laje de pedra, outro trabalho dos mais antigos.

5- Você segue alguma escola ou estilo nas suas criações?

Eu sigo o meu feeling para avaliar o que pode ficar mais bonito no que identifico como proposto por cada planta e em cada momento. O termo Escola remete a uma conjuntura impositiva, disciplinar, quando na verdade é um resultado da reflexão, colocada de forma didática, dos próprios personagens que compõem o universo do bonsai, a respeito de todas as possibilidades e nuances da expressão artística. A essência da manifestação artística começa e se completa no ato da criação. O artista concebe e realiza, a Escola traduz.

6 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

O kengai, pela singularidade estética da inversão da projeção do tronco, é um estilo que tem seu status destacado.

7 – O que a arte do bonsai agregou na sua vida?

Eu sou musicista desde adolescente, instrumentista habilidoso, paixão de uma vida inteira, mas com uma certa frustração por não me saber compositor. A arte do bonsai – e do suiseki também – me agraciou com a condição de autor. Agora, além de interpretar as minhas músicas, eu componho as minhas próprias obras.

8 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Essa questão estética diz respeito a cada planta em particular, e também a quem vai trabalhar nela. Como personagem que é, o bonsai pode muito bem representar uma árvore de uma outra espécie que não a sua própria, desde que tenha atributos propícios pra isso. Como expressão artística, o importante é a criatividade e o capricho.

9 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje no cenário mundial?

Masahiko Kimura, sem dúvida. Foi através das obras dele que entendi que bonsai é uma escultura viva.

10- Hoje é mais fácil começar a se dedicar ao cultivo de bonsai? Quais eram as maiores dificuldades no início?

A arte do bonsai está bem difundida no país, muito intercâmbio, muita gente se dedicando com primor. Toda a estrutura está muito mais organizada, e o acesso a todos os itens necessários para se fazer um bonsai de qualidade estão disponibilizados no mercado com uma profusão que facilita e incentiva bastante o cultivo dessa arte sublime.

11- Qual a sua percepção hoje da arte do bonsai no Brasil? Você acha que teve um crescimento? Há uma maior projeção dos nossos artistas no cenário mundial?

Sem dúvida o cenário do bonsai no Brasil está bem amadurecido. Tenho acompanhado essa evolução ao longo desses quase vinte anos que milito nessas fileiras. Muita gente talentosa, plantas de qualidade e intercâmbios regulares com outros artistas renomados, ajudaram a lançar o país no cenário internacional da arte.

Me sinto muito orgulhoso por ter contribuído de alguma forma, com um trabalho de qualidade num material nativo de qualidade, a cimentar esse reconhecimento internacional do talento de nossa gente e das nossas belezas e riquezas naturais.

12 – Que conselhos você daria para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

Esteja preparado pra levar essa relação para o resto da vida.

13- Que atributos o bonsaísta deve ter para conseguir um bom resultado nos seus trabalhos?

Boa percepção, senso de equilíbrio, ponderação e capricho. Se a planta tiver espinhos, tudo isso em dobro.

14- Quais os benefícios que podemos encontrar no cultivo da arte do bonsai?

O aprimoramento do senso de equilíbrio talvez seja o grande benefício que resulta da lida com a arte do bonsai. Esse senso de que tudo gira em torno de forças opostas e complementares que se aquilatam e produzem o equilíbrio está em tudo no cultivo do bonsai. E também está em tudo na vida.

15 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

Bonsai é a arte do equilíbrio.

Contatos para adquirir bonsais ou conhecer o espaço de Marcelo Martins:

Se você tem vontade de adquirir um trabalho de Marcelo, muitos dos bonsais que você viu na entrevista estão à venda. Para maiores informações aqui estão os contatos.

EMAIL:   marceloyamadori@hotmail.com

TELEFONES:  (22) 2643 2991  /  (22) 8818 2992  /  (22) 9255 6672.

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Bonsai or contacts to get to know the studio Marcelo Martins :

If you are interested in acquiring a work of Marcelo , many of bonsai that you saw in the interview are on sale. For more information, here are the contacts .

EMAIL : marceloyamadori@hotmail.com

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Bonsai o los contactos para conocer el estudio de Marcelo Martins :

Si usted está interesado en adquirir una obra de Marcelo , muchos de Bonsai que se vio en la entrevista están a la venta . Para obtener más información , aquí están los contactos.

CORREO ELECTRÓNICO: marceloyamadori@hotmail.com

TELÉFONO: (22) 2643 2991 / (22) 8818 2992 / (22) 9255 6672 .

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Bonsai oder Kontakte zu bekommen , das Studio Marcelo Martins wissen :

Wenn Sie Interesse am Erwerb der Arbeit von Marcelo sind, sind viele von bonsai , die Sie im Interview sah zum Verkauf . Weitere Informationen sind hier die Kontakte .

EMAIL: marceloyamadori@hotmail.com

TEL: (22) 2643 2991 / (22) 8818 2992 / (22) 9255 6672 .

Lindas fotos tiradas pelo Marcelo de um Pithecolobium crescendo harmonioso em seu ambiente natural.

Sementes do Pithecolobium torthum.

Entrevista com  Rock Júnior

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , , , , , , on 11 d e dezembro d e 2010 by aidobonsai

Dando continuidade às entrevistas com grandes bonsaístas brasileiros, tenho o prazer de publicar a matéria com o amigo Rock Júnior. Acho que cada bonsaísta pode transmitir um pouco da energia que motiva seu trabalho,  falar da sua trajetória e como o bonsai preenche de forma diferente o interior de cada artista. Quando elaborei as perguntas, mais do tentar extrair conhecimento técnico, queria que fosse como um bate papo, como se eles estivessem sentados aqui no meu espaço tomando um chá e fazendo o que acho que todos nós mais gostamos: contar histórias, dividir experiências com amigos e, é claro, fazer bonsai.

Rock Júnior

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai ?

No início da década de 90 vi um bonsai numa floricultura perto da minha casa e isso despertou a minha curiosidade para o assunto. A partir daí, comecei a procurar por bibliografias sobre a arte, a plantar e a garimpar mudas de tudo o que era árvore nativa que eu encontrava. E não parei mais…

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar ?

Gosto de muitas; entre as nossas nativas posso destacar a jabuticabeira, as caliandras ( Selloi, Spinosa, Depauperata) e o piteceolobium. E entre as exóticas, ficus, acer buergerianun, celtis e prumus são as quais mais me indentifico. Também aprecio e me divirto muito com os junípeurs, pois proporcionam a possibilidade de trabalhar muito com a criatividade.

3 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região, mas as circustâncias de clima e adaptação não permitem ?

Larix, pinheiro branco japonês e alguns tipos de acer, entre outros.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Eu posso citar dois trabalhos que mostram nitidamente minha evolução na arte, de forma que as considero, ao mesmo tempo, mestres e colegas de turma.

Primeiramente, este juníperus jacaré. (O segundo trabalho encontra-se no final da entrevista)

Mar/05 - Imagem do junipero antes do início do trabalho. Observe seu potencial: bonito e suave...

No vaso de treinamento, podemos observar a ancoragem que foi feita visando que ela fique na posiçnao desejada.

Mai/06 - Mais de um ano se passou e o procedimento nesse período foi apenas adubar e fazer limpezas freqüentes nos galhos.

(Mai/07) Com mais de 2 anos do início do trabalho, o crescimento foi livre sem podas.

A intenção era dar o máximo de vigor para a massa verde com adubações regulares. Costas do junipero.

Resultado de mais uma sessão de trato.

Nov/07- 6 meses depois, início da primavera. Hora do transplante.

Antes do procedimento, fez uma nova reestilização dos galhos buscando maior compactação e redução da copa.

Foi usada ráfia, e depois fita isolante de alta fusão para podermos tracionar o galho.

O ápice que estava pra cima agora está totalmente para baixo.

conseguindo assim um melhor efeito visual, com maior compactação e proporção entre espessura de tronco e altura.

Resultado dos trabalhos, agora é esperar que o tempo faça a sua parte.

Setembro de 2009

Detalhe - stembro 2009

Primavera 2009

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Eu gosto de todos! Mas o que mais levo em consideração é a naturalidade e a expressão da árvore. Independente do estilo, é fundamental que o bonsai realmente nos remeta a uma árvore muito, muito velha e o mais natural possível, com o mínimo de sinais de trabalho e intervenção humana.

Uma frase do Mestre John Naka ilustra bem o que me refiro: “Faça seu bonsai ficar parecido com uma árvore e não sua árvore parecida com um bonsai.”

O grande mestre John Naka com uma floresta (Yose Ue) de sua autoria na Goshin National Arboretum, Washington DC May 2003

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida ?

O bonsai acrescentou muito à minha vida. Primeiro por que descobri uma grande paixão e esse sentimento me trilhou por uma caminho maravilhoso dentro da arte.

Além de ter o privilégio de poder estudar e tentar compreender um pouco destas magníficas obras da natureza e do tempo, que são as árvores antigas, ainda posso conhecer pessoas, lugares, culturas diferentes e cultivar verdadeiras e sinceras amizades.

É, sem dúvida alguma, uma caminhada extremamente prazerosa que nos leva a um desenvolvimento emocional e espiritual, alterando até mesmo a nossa percepção do mundo e da natureza.

Também acredito que hoje eu respeite a natureza, as pessoas à minha volta, e a mim mesmo muito mais que antes.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnica e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Um excelente pergunta.

As funções das regras são, antes de mais nada, para facilitar a didática e criar um padrão de beleza e avaliação das árvores trabalhadas, como em exposições por exemplo. Se o trabalho consegue expressar beleza, harmonia, força e equilíbrio mesmo sem seguir as regras clássicas, ótimo! Mas…

Podemos fazer um paralelo com o futebol, por exemplo. Imagine que você tenha um time mas queira jogar baseado em regras suas e não as impostas pela FIFA. Você iria jogar sozinho, concorda? Com o bonsai não é diferente e é muito claro. Se você quer fazer bonsai sem se preocupar com as regras não tem problema algum, desde que esteja se divertindo e não tenha pretensões de conseguir prêmios em exposições. Agora, se você deseja participar de exposições ou trabalhar profissionalmente com bonsai, as regras nesse caso são, na minha opinião, imprescindíveis e determinantes.

O Mestre Kimura por exemplo, quebrou as regras quando se destacou no bonsai nas décadas de 70 e 80, mas o fez sendo mais arrojado, trabalhando com uma proporção mais baixa 2 a 3 pra 1, usando o arame da forma que conhecemos hoje em dia e mantendo um excelente nível de apresentação e refinamento das árvores. E o fez depois de estudar durante anos com um mestre da escola tradicional japonesa.

Trabalhos de Bonsai e Penjing por Masahiko Kimura

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje, no cenário mundial?

Não tem como não citar os mestres Masahiro Kimura e Salvatore Liporace, tanto pela expressão de suas obras quanto pelo trabalho didático feito por ambos. Os dois conseguiram acrescentar muito ao desenvolvimento e respeito pela arte nos seus respectivos países de origem.

Salvatore Liporace - Myrtus communis

Pino de Montaña - Salvatore Liporace

9 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

Respeite a árvore, antes de mais nada; tenha a preocupação de se informar a respeito de todo o cultivo antes de se aventurar sem experiência. Estudar muito é o melhor e mais acertado caminho. Muita paciência e humildade, pois o tempo é quem lapida o trabalho e, quanto mais aprendemos, mais descobrimos o quanto não sabemos nada.

Mas, na minha opinião, o que realmente importa é se divertir e estar em sintonia com a natureza e com seu interior.

10 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

“O cultivador é médico, pintor, arquiteto, escultor e pai ao mesmo tempo. Você tem de conviver com a planta e proporcionar à ela tudo o que necessita nas quatro estações. Em troca, quando o homem entra em diálogo com o bonsai, atinge um estágio superior, um vazio positivo. É mais que uma terapia. É uma relação de amizade.” (Tomio Yamada)

Todo galho bonito já foi uma gema um dia..

O difícil é ser simples…

Abaixo o trabalho do Rock Júnior com acer palmatum :

Esse acer palmatun eu destaco principalmente pelo tamanho. Sou um apaixonado pelas pequenas, não sei se pelo desafio do cultivo e formação, ou pela dificuldade de se conseguir a simplicidade e a beleza em tão pouco volume.

(Out/03) Início do trabalho de estilização. Para a definição da frente do Bonsai, foi feita uma análise cautelosa de todos os ângulos da muda.

O objetivo é aproveitar o máximo o seu movimento natural e distribuição de galhos.

O fator determinante foi o Nebari, que visto em detalhe, percebe-se o seu potencial que deveria ser realçado.

E também suas imperfeições que deveriam ser trabalhadas ou escondidas.

Escolhida a frente, foi feita a 1ª poda, drástica. O transplante foi feito no mesmo dia pelo gde volume de massa verde podado.

Detalhe da gema mantida que se tornou o novo 1º galho da planta após sua brotação.

(Jan/04) 3 meses depois, a planta apresentou uma excelente brotação e a gema se tornou o 1º galho.

Uma referência para a altura final da planta: pouco mais de 10cm.

(Out/05) 2 anos após o início do trabalho já com o nebari em evidência e a estrutura de galhos bem definida.

Para que a copa ficasse bem compacta, eram regulares desfolhas e podas nas pontas da brotação. Observe também a adubação.

Aqui pode-se observar a nova estrutura, o posicionamento dos galhos e a cicatriz da poda brusca bem evoluída. (fundo planta)

(Jan/06) No verão foi feita nova desfolha para melhorar a ramificação e diminuir o tamanho das folhas. (frente planta)

(Abr/07) Foto do Bonsai após 3 anos e meio de trabalho (frente planta)

A cicatriz da poda brusca já fechada e os galhos bem posicionados (fundo planta)

Pra ter uma idéia do tamanho.

Vista superior da brotação na primavera de 2008

Foto na primavera de 2008

Setembro 2010

Primavera 2010

Altura: 12cm., tronco: 4cm.

Entre na galeria e veja mais trabalhos do bonsaísta Rock Júnior:

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Entrevista com Charles White

Posted in Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , on 28 d e novembro d e 2010 by aidobonsai

Estou muito feliz por conseguir publicar aqui no blog algumas entrevistas com bonsaístas brasileiros que eu admiro. A quarta entrevista traz um pouco dos trabalhos e das idéias do bonsaísta Charles White. Queria aqui agradecer a disponibilidade e a ajuda em divulgar a nossa arte.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai?

Sempre gostei de plantas, principalmente as decorativas e, no final dos anos 80, minha atenção começou a se voltar ao bonsai que, aliás, só via por fotos. Em 1990 ganhei um e isto, definitivamente, marcou meu início. Parti então em busca de mais informações, comprando todos os livros que encontrava, assim como plantas, nas quais tentava aplicar as técnicas que ia gradativamente aprendendo.

Este processo de aprendizagem se mantém até hoje, embora de forma muito mais dinâmica e interativa; porém, cada vez mais me evidenciando o pouquíssimo que sei e, por isso mesmo, me motivando a seguir nesta busca.

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar ?

Diria que, mais do que espécies de predileção, tenho meus períodos de maior dedicação à diferentes espécies. Atualmente tenho trabalhado mais com algumas nativas brasileiras como jabuticabeira, calliandra spinosa e depauperata e pithecolobium tortum. Acer buergerianum é outra espécie que me agrada muito e eles estão sempre presentes no meu acervo, predominantemente shohin. Meu foco para o futuro é trabalhar com coníferas em geral, espécies que admiro muito. Sua grande versatilidade representam um belíssimo desafio e estímulo para a criatividade.

3 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região mas as circunstâncias de clima e adaptação não permitem ?

A imensa variedade de acer sempre me fascinou e, por anos, insisti no cultivo de todas as variedades que me caíssem em mãos. Minhas infinitas tentativas de combater todas as manifestações adversas que estas variedades apresentavam se mostraram sistematicamente infrutíferas. Assim, por respeito às plantas, decidi por cultivar apenas as 2 variedades que se comportam bem no clima de São Paulo, que são o acer buergerianum e o acer miyassama.

Larix decidua é outra variedade de conífera que, se as condições climáticas permitissem, certamente fariam parte de minha coleção. Características como o tamanho das agulhas, a tonalidade do verde, a textura da casca, as proporções mínimas dos frutos, entre outras, tornam para mim esta planta absolutamente especial.

Wolfgang Putz

European Larch (Larix decidua)  –  Fall Colors  /   72cm

Yamadori nos Alpes Austríacos em 1995

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Tenho uma malpighia coccigera que cultivo há cerca de 18 anos e estimo ter mais de 22 anos, que suportou com muita valentia meus primeiros anos de aprendizagem, sempre saudável e florindo em abundância, o que me fez concluir que esta espécie é perfeita para iniciantes!

Esta malpighia é hoje um shohin com 18cm de altura e sua estética me agrada, embora esteja longe de ser um bonsai de destaque! Talvez pelo fato de ser a única que tenho dessa espécie, o tempo que está comigo, tamanho, robustez, floração e frutificação, definam meu especial carinho por ela!

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular ? Qual ?

Não! Impossível afirmar que eu tenha predileção por algum estilo! Um bonsai bem conduzido, seja em que estilo for, é capaz de me encantar. Gosto dos de plantas e estilos que apresentam mais movimento e mesmo alguma dramaticidade, como madeira morta bem trabalhada.

Poderia sim, dizer que os estilos que apresentam menos movimento e mais simetria me passam certa sensação de estática, por exemplo, chokan e hokidachi. Não que sejam menos bonitos, mas apenas me provocam menos impacto visual e sensações.

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida ?

Absolutamente sem que fosse uma razão para cultivar bonsai, esta prática me trouxe uma série de benefícios e, entre eles, cito apenas alguns:

– profissionalmente atuo na área financeira e, sendo o stress uma constante, o bonsai acaba sendo um contra-ponto perfeito, me permitindo relaxar “trabalhando” com eles, ainda que seja por alguns minutos ao final do dia.

– o fato de cultivar bonsai, em vasos de pequenas dimensões, totalmente dependentes de regas, nutrientes, podas, e uma série de outros cuidados, ampliou minha consciência também em outras esferas. Hoje me sinto mais atento a tudo e todos que, de alguma forma, necessitam ou dependam de minha atenção, me tornando assim, mais ciente de minhas responsabilidades, mais presente e participativo.

– minha capacidade de observação, contemplação e respeito pela natureza aumentou muito e estendeu-se para outras áreas onde harmonia e equilíbrio contribuem para o bem estar.

– por fim, cito como um maravilhoso “efeito colateral” do cultivo de bonsai o fato de poder fazer novas amizades, viajar, conhecer novas culturas, fato que, além do prazer que proporciona, me permite continuar o eterno aprendizado desta arte ímpar!

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística ?

Penso que esta questão estará sempre em pauta e nunca se esgotará, pois depende da visão de cada praticante. Minha visão pessoal é de que, ao iniciar na arte bonsai, queria ou não, temos que buscar referências, ao menos para saber o que distingue bonsai de outras plantas de jardinagem.

Nessa busca, vamos então nos deparar com as regras básicas que se aplicam ao bonsai e que, em minha opinião, devem ser a base de todos que iniciam. Discordo totalmente de iniciantes que, sem noção das regras, dizem preferir não se prender a elas e, assim, fazerem um trabalho mais “livre” e mais “natural”.

Sendo o bonsai uma arte quase milenar, seria muita falta de humildade de minha parte não dar valor a estas regras! Como desprezar um aprendizado que, ao longo dos séculos e pelos maiores mestres na arte bonsai, foi sendo criado e documentado, sempre na busca do equilíbrio e harmonia e, mais ainda, tendo a Mãe Natureza como inspiração maior? A busca sempre foi no sentido de fazer com que o bonsai fosse uma réplica em escala menor das árvores, tal como se encontram na natureza, e não fazer do bonsai uma livre criação estética do homem! Mais uma vez, a natureza, em suas infinitas variáveis, também inspirou os diferentes estilos de bonsai, cada um deles procurando mostrar os efeitos de suas forças ao longo da vida das árvores.

Penso que a forma mais livre e artística pode ser praticada após alguns anos de prática comprometida com as regras, até chegar ao ponto de serem aplicadas sem que o praticante sequer pense nelas!

Acredito que o momento em que o bonsaísta começa a criar com mais liberdade e ousadia, chega de forma mais natural que planejada. Neste ponto, ele já estará de tal forma impregnado pelas regras que, ao infringi-las, terá a clareza do porquê fazê-lo e, mais ainda, a percepção e sensibilidade de que o resultado final será melhor. Às vezes, ainda que não seja intencional, estes bonsais começam a mostrar características particulares que acabam por definir a “marca registrada” de seu criador.

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje, no cenário mundial?

Sem dúvida o Japão continua sendo o celeiro das maiores autoridades no bonsai, e seria extensa a lista de mestres de renome. Entretanto, eu citaria Masahiko Kimura, um bonsaísta que desenvolveu um estilo onde predomina muito trabalho em madeira morta, com muito movimento e menos verde, estilo este que, no início, criou grandes controvérsias no Japão. Em poucos anos, entretanto, seu estilo conquistou mais e mais adeptos e prêmios e hoje, não apenas no Japão, mas em todo o mundo, Kimura é reconhecido como um gênio no bonsai. Mais que isso, quebrou paradigmas e praticamente definiu uma nova escola dentro da arte bonsai.

Bonsai de Masahiro Kimura

Admiro John Naka que, embora nascido nos EUA, viveu no Japão dos 8 aos 21 anos e, sob orientação de seu avô, passou por um grande aprendizado na arte bonsai. Naka aprofundou estudos ligados a técnicas, regras, proporções, estilos, sempre usando seus próprios desenhos para exemplificar suas propostas. Foi um grande divulgador do bonsai no Ocidente e escreveu os livros Bonsai Techniques I e II, que são considerados, por muitos bonsaístas, como os melhores livros técnicos sobre bonsai.

John Naka & Goshin National Arboretum, Washington DC May 2003

Gosto dos trabalhos de Walter Pall por transmitirem uma naturalidade impressionante. A imagem das árvores na natureza, incluindo suas qualidades e “defeitos”, é reproduzida de maneira magistral em seus bonsais. Num momento em que os estilos são cada vez mais caricaturas de árvores, sempre mais baixos e de troncos mais grossos, Walter Pall resgata o estilo naturalístico que, espero, também faça escola entre nós.

Walter Pall

Por fim, cito Salvatore Liporace, italiano, discípulo de Kimura e titular do Studio Botanico, com sede em Milão e também da Escola Européia de Bonsai. Liporace é mestre de reconhecimento mundial e, particularmente na Itália, onde o bonsai é praticado em altíssimo nível. Sem dúvida Liporace contribuirá para o desenvolvimento da arte bonsai no Brasil, nos oferecendo cursos de sua escola. Além dele pessoalmente ministrar seus cursos, vem também qualificando bonsaístas brasileiros para serem multiplicadores de seus ensinamentos.

Salvatore Liporace

9 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar a arte do bonsai?

– Busque informações de todas as formas, livros, internet, eventos. Busque entrosamento com colegas iniciantes e com bonsaístas mais experientes. Interaja, pergunte, questione, participe.

– Conheça a fisiologia básica das plantas que possui, antes de fazer nelas intervenções indiscriminadamente.

– Pratique muito, procurando aplicar na prática os ensinamentos, regras, técnicas e estilos. Se possível, procure ter mais de uma planta entre as mais recomendadas para iniciantes.

– Procure se limitar ao básico, seja com relação a ferramentas, subtratos, fertilizantes, plantas e vasos. Evite sofisticações e custos desnecessários na fase inicial.

– Acima de tudo, pratique paciência e humildade, respeite suas plantas e assuma com elas um compromisso de responsabilidade. Afinal, foi sua escolha mantê-las em vasos, tornando-as totalmente dependentes de seus cuidados!

Charles apoiando a demonstração de Suthin Sukosolvisit da Tailândia na sua demontração no evento “Bonsai 2010”.

10- O que você acha que está faltando ser feito no Brasil para um maior crescimento e organização da arte bonsai para que ele tenha o mesmo crescimento que a Espanha, Itália, Alemanha, etc…?

Se olharmos o estágio da arte bonsai no Brasil hoje, comparando com o que era há 20 anos, fica evidente que a e evolução vem acontecendo a passos largos.

Não cresce simplesmente o número de novos bonsaístas mas, também, a qualidade técnica e estética das plantas, quantidade e nível dos eventos, reunindo as melhores competências nacionais e trazendo cada vez mais bonsaístas de renome internacional. Uma evidência desta evolução é o fato de vários bonsaístas nacionais já estarem sendo convidados como demonstradores em importantes eventos no exterior.

Apoiando Morten Albeck, da Dinamarca na sua demonstração no ” Bonsai 2007″ em Ribeirão Preto.

O crescimento do mercado consumidor brasileiro tem estimulado a criação de novos empreendimentos e negócios que, por sua vez, vem suprindo os praticantes com mais produtos e insumos, não disponíveis anos atrás, embora ainda longe do que se encontra em países onde a arte bonsai é bem desenvolvida.

Ainda assim, há muito a ser feito!

Penso que o bonsai no Brasil encontra-se numa fase de transição em que os eventos começam a exigir estruturas e organizações gradativamente mais profissionais, com exposições de nível mais nacional e menos regional.

O passo seguinte seria o Brasil sediar eventos internacionais, ampliando ainda mais o intercâmbio de conhecimentos.

Jabuticabeira trabalhada no evento “Bonsai 2007” em Ribeirão Preto.

Vejo ainda despontar a necessidade de se criar uma entidade em nível nacional que, em sintonia com as organizações regionais, busque bons exemplos do exterior na organização de exposições e eventos, proponham regras e critérios voltadas aos bonsai expostos, assim como sua correta avaliação. A meu ver, seria desejável que os ocupantes de cargos diretivos nesta organização não sejam profissionais do bonsai, minimizando-se assim eventuais conflitos de interesses, priorizando-se ações voltadas à efetiva divulgação e desenvolvimento da arte.

Evento Bonsai 2009. Charles apoiando Chase Rosade dos EUA.

Creio ser interessante a organização de eventos que ofereçam, além de atividades disponíveis a inscritos pagantes, amplo acesso a exposições e mercado de produtos e plantas, ao grande publico que ainda desconhece o bonsai, a custos simbólicos.

 

Certamente existe ainda uma extensa lista de pontos a serem aperfeiçoados, mas acredito que os esforços que já vêm sendo empreendidos, somados aos bons exemplos do exterior, gradativamente trarão um desenvolvimento que colocará o Brasil, em mais alguns anos, como um dos pólos de excelência na arte bonsai.

Demonstração no evento “Slovakia 2010” , de Vladimir Ondejcik em Nitra.

11 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

Bonsai é arte viva que nos alimenta a alma em sua exuberante beleza! É criação que brinda seu criador com lições preciosas que, quando entendidas e aplicadas, enriquecem nossa vida!

Entrevista com Luís Galvão

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , on 28 d e outubro d e 2010 by aidobonsai

Dando continuidade às entrevistas de grandes bonsaístas brasileiros, trago aqui o trabalho do artista Luis Galvão.  Seu trabalho com plantas nativas é diferenciado e, sempre que tenho tempo, estou olhando suas fotos e admirando seus bonsais no Facebook. Gostaria de destacar aqui o seu exemplar de  Pau Mulato e Araça Piroca: esses trabalhos poderiam estar na capa de qualquer revista internacional de bonsai. Uma pessoa simples com um trabalho muito sério, esse é o astral que  Luís me passou em sua entrevista. Obrigado ao amigo mais uma vez pela disponibilidade de dividir, aqui no blog, um pouco das suas idéias.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai? Me fale um pouco sobre você, seu espaço e onde ele está localizado.

Faz precisamente 11 (onze) anos e 6 (seis) meses que ingressei nesta arte. Tomei conhecimento através de um amigo de que haveria um curso básico de bonsai para iniciantes em Recife. Na ocasião, este curso me foi muito útil e prazeroso, pois me encontrava com alguns problemas pessoais, e o bonsai ajudou bastante, elevando a minha auto-estima. Atualmente, resido na cidade de Igarassu, região metropolitana do Recife.

Ficus microcarpa

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Bem, para mim não existe precisamente “aquela” espécie, pois cada uma tem a sua particularidade e harmonização.

3 – Como você vê o crescimento e procura pelo bonsai hoje no Brasil?

Hoje, no Brasil, os eventos e exposições que vem se efetivando em diversos estados; também a divulgação pela internet vem atraindo novos adeptos.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre eles.

Para mim é difícil, pois a maioria dos meus trabalhos é feita de Yamadori, e cada um tem sua história de relacionamento muito grande comigo, até mesmo os feitos de sementes, estaquias e alporquias, sendo esta a técnica que menos utilizo. Agora posso afirmar que os trabalhos que mais chamam a atenção dos visitantes, são os Paus Mulatos e Araçá Pirocas, destacando-se sempre, aquele que você mesmo gostou, durante a visita às fotos do viveiro.

Pau Mulato

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Não tenho um estilo preferido. Procuro sempre moldar minhas plantas de acordo com as características que consigo visualizar nelas, aprimorando sua estética à sua personalidade.

Pitangueira florida

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida?

Gosto da natureza desde criança. Aprendi com o bonsai a ser mais cauteloso, pensar mais no futuro, como também respeitar a vida como um todo.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Olha! Eu sempre me questiono neste aspecto. Acho que devemos conhecer técnicas e estética para darmos início a um conhecimento mais profundo de um trabalho em que a planta possa sentir-se bem com ela mesma, e ser bem sucedida quando apresentada em público.

Ubaia com fruto

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje, no cenário mundial?

São vários. Entre eles temos John Naka (in memorian), Kimura, Salvatore Liporace; porém, o que mais me chamou atenção foi o Charles Cicerônio (África do Sul). Tive o prazer de conhecê-lo em um evento do Atelier do Bonsai; daí então passei a admirá-lo como bonsaista e como pessoa, por sinal muito simples, quando o mesmo falou em bom tom que nós vivemos em um país tropical e que deveríamos desenvolver estilos e técnicas para nossas espécies…Isto me marcou bastante.

John Naka - Yose Ue

Masahiko Kimura - Juniperus Chinesis 78cm

Salvatore Liporace - Juniperus chinensis

9- Que perfil e pessoas hoje buscam aprender a arte do bonsai no Brasil?

O universo do querer é muito grande. Existem aqueles que simplesmente admiram a beleza do bonsai e querem tê-lo apenas por vaidade; neste caso, a maioria. E existem aqueles que amam de fato a natureza e vivem afastados dela, tentando, assim, levá-la para as selvas de pedra para realizarem seus sonhos de voltar às suas raízes.

10- O que você acha que as pessoas podem encontrar na arte do bonsai que as ajude tanto no trabalho como na sua vida pessoal?

Existem várias coisas que podemos por em prática em nossas vidas com a arte do bonsai. Primeiramente paciência; depois determinação e bom relacionamento com outras pessoas.

11- Qual erro você acha mais comum nos iniciantes quando começam a se dedicar ao cultivo do bonsai?

Na minha opinião, o erro está na falta de orientação das pessoas que administram cursos para iniciantes. Eles têm obrigação de ensiná-los, como primeiro passo, a fisiologia da espécie e depois, então, a estilização da planta.

12 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

O conselho que tenho a dar aos iniciantes é o seguinte: procurar fazer o curso com uma pessoa séria, que goste e respeite a natureza, que trabalhe com seriedade, não visando o lado financeiro querendo apenas comercializar, pois estamos lidando com uma vida que merece respeito, e não querer viver fazendo experiências sem o conhecimento da arte.

13 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetize nossa arte.

Bonsai é vida, é arte, é projeto, é sensibilidade, é compreensão, é dedicação, é afinidade, é sonho, é puramente amor ao que você faz.

A seguir uma galeria de fotos com uma demonstração realizada  por Luis Galvão no evento da Associação dos Bonsaistas de Ribeirão Preto em São Paulo no dia 01/05/2010. A planta escolhida por ele foi um Araça Piroca.

Entre na galeria e veja toda demonstração:

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Entrevista com Sergivaldo Costa

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , , on 7 d e outubro d e 2010 by aidobonsai

Comemorando um ano do meu blog, gostaria de compartilhar com meus leitores e amigos que frequentam o Aido Bonsai, uma série de entrevistas com os bonsaístas brasileiros que chamam a minha atenção com seu trabalho e dedicação à nossa arte. Muito me orgulho em começar com os trabalhos de Sergivaldo Costa. Seus bonsais tem  grande cuidado estético, possuem lindos nebaris e trazem consigo toda beleza das árvores nativas da sua região. Gostaria aqui de agradecer a disponibilidade e a velocidade com que ele atendeu ao meu pedido de entrevista.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai ?

Tudo começou em setembro de 1984, quando estava numa estação rodoviária à espera do ônibus para ir ao trabalho, e encontrei numa banca de revistas a “Edição Especial da Revista dos Amantes da Natureza – BONSAI”. Fiquei fascinado e, a partir dali, comecei a tentar fazer bonsai com todo tipo de plantas que encontrava pela frente: mangueira, jambeiro, pimenteira, flamboyant, etc.

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Entre as espécies que cultivo, as que mais gosto de trabalhar são o umarizeiro-bravo (Calliandra spinosa) e a jurema-branca (Pithecellobium dumosum). Ambas, pelas suas características (folhas pequenas, fácil enraizamento, brotação vigorosa após as podas e intensa ramificação), são excelentes para o cultivo do bonsai; mas a primeira, pela exuberância da textura do tronco e floração é, sem dúvida, a minha preferida.

Umarizeiro bravo   –   (Calliandra spinosa )

Jurema branca  –  Pithecellobium dumosum


3 – Que espécie você gostaria de trabalhar mas as circustâncias de clima e adaptação não permitem?

Ah, são várias espécies que adoraria poder cultivar mas, infelizmente, o clima da região onde moro não permite. Posso citar, por exemplo, o Acer palmatum e tantos outros áceres; especialmente um que tem uma coloração encantadora: a Azalea satzuki.
Azalea satzuki – US National Arboretum Bonsai Collection

Acer palmatum – Mr. Walter Pall

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Não possuo muitos exemplares na minha coleção, mas é difícil destacar uml. Cada planta tem uma história importante para mim e várias tem significado especial: o Ficus microcarpa, o primogênito; o Pitheceelobium dulce, pela experiência de aprendizado que me proporcionou; o “gigante” araçá-piroca (Myrcia cf. Multiflora), pela sua imponência (para mim) e aventura que foi  fazer esse yamadori,  etc.

Ficus microcarpa – O primogênito em 1996


Ficus microcarpa – O primogênito em 2008


Ficus microcarpa – O primogênito em 2009


Arrebenta boi  –  Myrcia  Multiflora

5 –  Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Os estilos que mais me atraem no bonsai são aqueles que transmitem a idéia de dramaticidade, como por exemplo, o varrido-pelo-vento (Fukinagashi).

Para saber mais sobre o estilo Fukibagashi acesse: https://aidobonsai.wordpress.com/2009/06/06/a-arvore-e-o-vento/


6 – O que a arte do bonsai agregou na sua vida ?

Sou um pouco estressado e não sei como seria minha vida sem o bonsai. Quando estou entre minhas plantas esqueço-me dos problemas e me sinto mais feliz. Além disso, o bonsai permitiu-me conhecer pessoas diferentes e fazer boas amizades.

Araçá-piroca (Myrcia cf. multiflora)

Calliandra spinosa


7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística ?

Eu encontrei minha forma de fazer bonsai e sinto-me realizado com isso. Comecei aprendendo sobre as regras, lendo bastante e analisando os trabalhos de vários mestres, dos quais busquei inspiração.

Sou perfeccionista por natureza e graças a isso não me acomodo com a ilusão de que faço um trabalho maravilhoso. Talvez aí resida minha obsessão pela busca do aprimoramento, pela compreensão de que, por trás de regras supostamente rígidas, exista uma razão lógica para realizarmos, com sucesso, trabalhos agradáveis aos nossos olhos.

Entretanto, penso que cada um deva buscar o caminho que mais o faz sentir-se realizado, quer seja seguindo regras ou de forma livre e descontraída.

Acredito que meu trabalho é uma mistura de tudo aquilo que vi e aprendi.

Umarizeiro-bravo (Calliandra spinosa)

Calliandra spinosa


8 – Qual bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje no cenário mundial?

O Robert Steven, da Indonésia, é o bonsaísta que mais me chama a atenção do cenário mundial atual. Seus trabalhos falam por si só e seus livros mostraram-me caminhos a percorrer que nenhum outro bonsaísta, até então, ousou mostrar.


9 – Que conselhos você daria para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

1)    Bonsai é tempo e paciência, sinta-se feliz com o que está produzindo no momento, mas não se iluda acreditando que descobriu a fórmula mágica de fazer um novo bonsai artístico rapidamente.

2)    Leia o máximo que puder sobre bonsai, participe de eventos, aprenda com os mais experientes e compartilhe o que já aprendeu.

Carqueijo (Calliandra depauperata)


10 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

Bonsai é arte e, como tal, cada trabalho expressa um sentimento de nossas almas.

Tataré (Pithecellobium tortum)

Entre na galeria ou veja o slide show com mais trabalhos do Bonsaista Sergivaldo Costa.

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