Arquivo para Bonsais do cerrado

Entrevista com Luis Fernando Nickfury

Posted in Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , on 24 d e julho d e 2012 by aidobonsai

Mais uma entrevista com um amigo que me deu a oportunidade de visitar sua casa e conhecer seu espaço em Brasília. Luis Fernando Nickfury é um apaixonado pela nossa arte,  e isso se retrata no seu trabalho cultivando bonsai. Tive a oportunidade de conhecer um pouco das árvores do cerrado e de observar seu trabalho aprimorado em um estilo que eu acho muito interessante, o Ishitsuki, (Raíz sobre rocha).  Aqui o meu agradecimento por ter me recebido e ter dividido suas experiências, muito obrigado.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar arte do Bonsai ?

R- Há uns 15 anos, aproximadamente, lendo revistas antigas de bonsai publicadas no país, isso despertou meu interesse pela arte, passando então a tentar formar algo que fosse ao menos parecido com o que via naquelas publicações. Inicialmente, tentei adaptar as plantas que julgava mais simples e fáceis de lidar, como as nativas Jabuticabeira e Pitangueira, passando ainda pelo Fícus benjamina e Duranta repens (pingo de ouro).

Pitangueira (Estilo Literati)

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar ?

R – Atualmente em meu viveiro cultivo variadas espécies, tanto nativas quanto alienígenas, sendo as minhas prediletas o Acer burgerianum, conhecido por Acer tridente, e a Serissa foetida chinesa.

Serrisa foetida       Mame  (altura 6cm)

3- Quais espécies melhores para o clima de Brasília?

R – De uma maneira geral, as melhores são as nativas, como as diversas variedades da Caliandra, a Jabuticabeira, a Pitangueira, o Pithecolobium tortus. Mas, igualmente, podemos também cultivar com sucesso todas as variedades do Ficus, bem como Piracantha, Carmona, Celtis, Resedá, Serissa, Aceroleira, Pinheiro negro e vermelho, dentre outras.

4- Quais espécies nativas do cerrado , podem ser modeladas para o cultivo do Bonsai?

R – A mais conhecida é a Mirindiba (Lafoensia Glyptocarpa), mas cultiváveis ainda o Ipê, o Jacarandá, Murici, Pau d’alho, Copaíba, Aroeira pimenteira, Uruvalha, etc.

Abaixo Penjing realizado em encontro do grupo de trabalho do Fernando com Serissas foetidas cultivadas em seu viveiro.

Fiquei encantado com esse Penjing de Serissas foetidas, a qualidade das árvores usadas nele, deram uma perpectiva e profundidade incríveis.

Eu sempre digo que o Penjing antes de mais nada deve se destacar pela qualidade de suas árvores e pela escala usada nas pedras e complementos, como pontes, figuras etc.

As diferenças de altura e a poda de patamares bem destacados, são uma característica dos bonsais utilizados no trabalho.

No lado esquerdo da paisagem as earvores seguindo na mesma direção e curvaturas, dão uma naturalidade e um movimento muito bonito ao conjunto.

Foi usado um Suiban de mármore para o conjunto. O Fernando com apoda de refinamento compacta bem a copa da Serrisa foetida e ela fica mais bonita.

5 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região, mais as circustâncias de clima e adaptação não permitem ?

R – Sem titubear, o Pinheiro branco, chamado pelos japoneses de Goyomatsu. (Pinus Pentaphylla).

Goyomatsu  (Japanese white pine) tree from Kandaka Shojuen bonsai garden.

Goyomatsu  (Bonsai museum)

6 – Dos seus trabalhos qual você destaca com um carinho especial. Fale um pouco sobre ele.

R – Pesquisando em sites e revistas japoneses, descobri o estilo Ishitsuki, que eles nomeiam os trabalhos formados com plantas e pedras. Despertou minha curiosidade e aguçou minha vontade de ter exemplares como os deles, todos formados com Acer burgerianum, ou Acer tridente, que os japoneses chamam de kaede. Desde então, nos últimos 8 anos, venho cultivando novas mudas nesse estilo, tenho algumas plantas quase prontas quanto à fusão de suas raízes com pedras, mas que ainda faltam formar a estruturação aérea, algo mais complexo nessa espécie e que irá levar ainda alguns anos mais para um resultado satisfatório.

Na Serissa foetida abaixo, Fernando começou o trabalho com uma pedra coletada em um rio. A pedra possuía um furo que ia de um lado a outro. Ele aproveitou e cultivou suas raízes, atravessando a perfuração da rocha.

Piracanta Coccinea

Detalhe das raízes atravessando a pedra.

Mais um trabalho destacando o estilo preferido de Fernado o Raíz sobre Rocha, Ishitsuki

Repare que a raíz desee pela fenda natural da rocha até a sua base.

7 – Você segue alguma escola ou estilo nas suas criações?

R – Eu procuro sempre me guiar pela escola clássica japonesa, muito embora muita coisa tenha mudado ao longo desses anos todos, então também me pauto pela atualização, tanto dos estilos quanto da maneira de formatar corretamente um bonsai.

Viburno

7B – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

R – Aprecio dois estilos, que são o Kengai e o Ishitsuki, composição que agrega pedra e planta, ambos têm variações interessantes, o que possibilita um resultado surpreendente e bonito, quando finalizados. Pithecolobium tortum, ainda em fase de refinamento.

Estilo Kengai (Cascata)

8 – O que a arte do bonsai agregou na sua vida?

R – O mais importante: ótimas e valiosas amizades, no DF, no Brasil e até no exterior.

Piracanta Coccinea

9 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

R – As ordens técnicas e estéticas são prevalentes num bonsai, qualquer que seja ele, mas certamente podemos e devemos ser flexíveis quanto à possibilidade de buscarmos, cada vez mais, formatos livres, que permitam exploração artística maior. Todavia, não poderemos jamais sacrificar o tecnicismo por uma abstração totalitária, ainda que reduzamos bastante a limitação criada pelas normas. Acredito num meio termo, entre esses dois limites, e que todos nós, bonsaistas, deveremos sempre conhecer a fundo as técnicas e regras, antes de tentar avançar dentro da criação livre. Ou seja, para quebrar uma regra, é preciso, antes, conhecer a regra.

10 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje no cenário mundial?

R – David Benavente, espanhol, é um grande nome, que merece meu respeito. Outro grande expoente, Masahiko Kimura, é sem duvida um dos nomes mais constantemente divulgados, por ser o precursor de inovações técnicas audaciosas quanto ao trabalho de formação de um bonsai de qualidade técnica superior. Admiro e estudo ainda o trabalho de: Kevin Wilson, Imai Chiaru, Sebastian Fernandes, John Yoshio Naka, Mario Komsta, Cheng Cheng Kung, Toni Payeras, Min Hsuan Lo, Robert Steven, dentre outros mais.

Rhus Sucedânea

11- Hoje é mais fácil começar a se dedicar a criação de bonsais? Quais eram as maiores dificuldades no início?

R – Sem duvida, atualmente temos à nossa disposição maiores facilidades quanto ao bonsai, seja no que toca a aquisição de novas e variadas espécies, ou mesmo antigas, bem como de vasos confeccionados no país, por grandes e excelentes artesãos ceramistas, e também pela facilidade em adquirir material didático sério e de qualidade, como revistas especializadas, citando duas espanholas, a Bonsai Actual e a Bonsai Pasion, além das sempre ótimas revistas japonesas Bonsai Sekai e Kinbon. Há também diversos livros, a maioria editados em idiomas estrangeiros, mas outros nacionais, que visam atender um segmento priorizando os iniciantes, como podemos atestar com publicações dos autores Mario Garcia Leal e Vania Fortes. Antigamente, porém, a dificuldade em conseguir bons livros, revistas e vasos era grande, e apenas uns poucos privilegiados tinham acesso a esse material. Ferramentas especiais e de qualidade, tanto japonesas quanto americanas e europeias também é algo que hoje em dia compramos por preços muito inferiores ao que foi pago no passado.

Pinheiro negro

12- Qual a sua percepção hoje da arte do bonsai no Brasil?  Você acha que teve um crescimento?  Há uma maior projeção dos nossos artistas no cenário mundial?

R – Desde há alguns anos nomes do bonsai nacional vem conseguindo estabelecer, lá fora, novas fronteiras, sendo o mais festejado o bonsaista Carlos Tramujas, que inclusive esteve a frente durante alguns anos da prestigiada publicação que citei, Bonsai Pasion, quando trabalhava para a empresa espanhola Mistral Bonsai. Outros nomes seriam os da bonsaista Regina Suzuki, Marcelo Martins, que teve plantas suas premiadas em concursos virtuais, e, mais recentemente, o grande incentivador do bonsai nacional, Mario Garcia Leal, que acompanhado por seu fiel escudeiro, o grande amigo Bergson Vasconcelos, vem há alguns anos participando de grandes eventos de bonsai na Europa e Africa, onde tem divulgado o nome e a qualidade do trabalho do bonsai nacional.

Pinheiro negro

13- Como está o crescimento do bonsai em brasília, que bonsaísta (s) você destaca pelo seu trabalho.

R – Brasilia, atualmente, não apresenta o mesmo crescimento que observamos ocorrer em outros locais, como esteve no passado. Há bonsaistas espalhados por quase todas as cidades do DF, mas infelizmente não temos atualmente nenhum ponto relevante de encontro, embora vez ou outra eu promova alguma reunião ou exposição, contando com amigos pertencentes a nossa Associação, criada em 2004, que tem apenas sede virtual: http://www.brasiliabonsaiclube.com

Um clube de amigos unidos pela arte do Bonsai.

Há, inclusive, um comércio relativamente fértil e até forte na cidade, desenvolvido pela amiga Jô Ribeiro, que participa ativamente em feiras, shoppings e outros eventos correlatos, onde sempre leva bonsai para vender, algumas peças adquiridas de cultivadores brasilienses, ombreando com outras, trazidas de outras partes do país. Embora o comércio desperte interesse e haja muitas pessoas que compram suas plantas, essas mesmas pessoas não buscam interação com nosso clube, nem procuram contato com nossos associados, no intuito de interagir conosco, de forma que não sei, com certeza, quantos cultivadores há, atualmente, no DF. Nesse cenário, porém, ouso referenciar o nobre amigo Francisco Lustosa, bonsaista há mais de vinte anos, que apresenta um trabalho de vanguarda e inovador, ao mesmo tempo, com plantas magnificamente trabalhados e formatados por ele dentro de parâmetros estéticos e visuais que não perdem em beleza para nenhum outro trabalho de grandes mestres, nacionais ou internacionais.

Fernando tem toda razão, o trabalho do Francisco Lustosa é de muita criatividade, especialmente os bonsais criados com madeira morta, eles são muito especiais.  Abaixo 3 trabalhos de Francisco Lustosa.  Mês que vem vou publicar sua entrevista, e terei o prazer de fotografar pessoalmente sua coleção para o blog, aguardem !

Estudo de movimento:

Buxinho ainda em fase de estudo de movimento, mas que mostra um trabalho estético lindo. O Fernando colocou a planta na pedra para que eu pudesse fotografar. Vou tentar sempre publicar o acompanhamento deste trabalho.

14 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar a arte do Bonsai.

R – Minha sugestão é que o iniciante busque primeiramente o conhecimento contido em livros, revistas, fóruns de discussão, sites e links da internet. Munido do conhecimento assim adquirido, que busque o mais rápido possível participar de algum curso, seja básico, intermediário e avançado, ou todos ao mesmo tempo, bem como vise participar de eventos, workshops, exposições, onde irá ter contato com ótimos professores, ver lindos trabalhos (que sempre servem de modelo) e carrear novas amizades, angariando bons amigos com que interagir e crescer na arte bonsai.

Mames de Serissa foetida

15- Quais atributos o bonsaísta deve ter para conseguir um bom resultado nos seus trabalhos ?

R – O primeiro e mais divulgado é a paciência. Sem pressa, podemos obter ótimos resultados no que tange ao cultivo e formação de um bonsai, obtendo resultados bem mais satisfatórios. Ainda, persistência, pois dificuldades sempre haverá e, superando-as, renovaremos nossa capacidade e vontade de continuar investindo em algo que, ao cabo e afinal, só nos trará prazer e alegrias, tanto na forma de termos lindos bonsai, quanto na possibilidade de angariar novos e valiosos amigos nesse caminho.

Caliandra seloi

16- Quais os benefícios físicos, mentais que podemos encontrar se dedicando a arte do bonsai?

R – O estresse cotidiano, diário, que todos nós sofremos vez ou outra, pode ser o primeiro mal a ser combatido com a prática constante da nossa arte bonsai. Além disso, a arte bonsai é uma forma de desenvolvermos nossa criatividade, de liberar nossas forças e ficarmos em sintonia com a natureza que nos cerca, carreando beleza aos nossos olhos, e satisfação pessoal, pela excelência dos resultados que obtemos com nosso trabalho e labor nesse hobby sempre apaixonante.

17 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

R – A compreensão da arte bonsai libera a energia criativa que existe em nós.

Abaixo uma serie de fotos de trabalhos que estão sendo desenvolvidos no estilo Ishitsuki   (Raiz sobre Rocha)


Link do Bonsai clube em Brasília :   http://www.brasiliabonsaiclube.com/

Entre na galeria e veja mais trabalhos de Fernando Nickfury:

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