Arquivo para Bonsai no Brasil

Entrevista com  Rock Júnior

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , , , , , , on 11 d e dezembro d e 2010 by aidobonsai

Dando continuidade às entrevistas com grandes bonsaístas brasileiros, tenho o prazer de publicar a matéria com o amigo Rock Júnior. Acho que cada bonsaísta pode transmitir um pouco da energia que motiva seu trabalho,  falar da sua trajetória e como o bonsai preenche de forma diferente o interior de cada artista. Quando elaborei as perguntas, mais do tentar extrair conhecimento técnico, queria que fosse como um bate papo, como se eles estivessem sentados aqui no meu espaço tomando um chá e fazendo o que acho que todos nós mais gostamos: contar histórias, dividir experiências com amigos e, é claro, fazer bonsai.

Rock Júnior

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai ?

No início da década de 90 vi um bonsai numa floricultura perto da minha casa e isso despertou a minha curiosidade para o assunto. A partir daí, comecei a procurar por bibliografias sobre a arte, a plantar e a garimpar mudas de tudo o que era árvore nativa que eu encontrava. E não parei mais…

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar ?

Gosto de muitas; entre as nossas nativas posso destacar a jabuticabeira, as caliandras ( Selloi, Spinosa, Depauperata) e o piteceolobium. E entre as exóticas, ficus, acer buergerianun, celtis e prumus são as quais mais me indentifico. Também aprecio e me divirto muito com os junípeurs, pois proporcionam a possibilidade de trabalhar muito com a criatividade.

3 – Que espécie você gostaria de trabalhar na sua região, mas as circustâncias de clima e adaptação não permitem ?

Larix, pinheiro branco japonês e alguns tipos de acer, entre outros.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Eu posso citar dois trabalhos que mostram nitidamente minha evolução na arte, de forma que as considero, ao mesmo tempo, mestres e colegas de turma.

Primeiramente, este juníperus jacaré. (O segundo trabalho encontra-se no final da entrevista)

Mar/05 - Imagem do junipero antes do início do trabalho. Observe seu potencial: bonito e suave...

No vaso de treinamento, podemos observar a ancoragem que foi feita visando que ela fique na posiçnao desejada.

Mai/06 - Mais de um ano se passou e o procedimento nesse período foi apenas adubar e fazer limpezas freqüentes nos galhos.

(Mai/07) Com mais de 2 anos do início do trabalho, o crescimento foi livre sem podas.

A intenção era dar o máximo de vigor para a massa verde com adubações regulares. Costas do junipero.

Resultado de mais uma sessão de trato.

Nov/07- 6 meses depois, início da primavera. Hora do transplante.

Antes do procedimento, fez uma nova reestilização dos galhos buscando maior compactação e redução da copa.

Foi usada ráfia, e depois fita isolante de alta fusão para podermos tracionar o galho.

O ápice que estava pra cima agora está totalmente para baixo.

conseguindo assim um melhor efeito visual, com maior compactação e proporção entre espessura de tronco e altura.

Resultado dos trabalhos, agora é esperar que o tempo faça a sua parte.

Setembro de 2009

Detalhe - stembro 2009

Primavera 2009

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Eu gosto de todos! Mas o que mais levo em consideração é a naturalidade e a expressão da árvore. Independente do estilo, é fundamental que o bonsai realmente nos remeta a uma árvore muito, muito velha e o mais natural possível, com o mínimo de sinais de trabalho e intervenção humana.

Uma frase do Mestre John Naka ilustra bem o que me refiro: “Faça seu bonsai ficar parecido com uma árvore e não sua árvore parecida com um bonsai.”

O grande mestre John Naka com uma floresta (Yose Ue) de sua autoria na Goshin National Arboretum, Washington DC May 2003

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida ?

O bonsai acrescentou muito à minha vida. Primeiro por que descobri uma grande paixão e esse sentimento me trilhou por uma caminho maravilhoso dentro da arte.

Além de ter o privilégio de poder estudar e tentar compreender um pouco destas magníficas obras da natureza e do tempo, que são as árvores antigas, ainda posso conhecer pessoas, lugares, culturas diferentes e cultivar verdadeiras e sinceras amizades.

É, sem dúvida alguma, uma caminhada extremamente prazerosa que nos leva a um desenvolvimento emocional e espiritual, alterando até mesmo a nossa percepção do mundo e da natureza.

Também acredito que hoje eu respeite a natureza, as pessoas à minha volta, e a mim mesmo muito mais que antes.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnica e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Um excelente pergunta.

As funções das regras são, antes de mais nada, para facilitar a didática e criar um padrão de beleza e avaliação das árvores trabalhadas, como em exposições por exemplo. Se o trabalho consegue expressar beleza, harmonia, força e equilíbrio mesmo sem seguir as regras clássicas, ótimo! Mas…

Podemos fazer um paralelo com o futebol, por exemplo. Imagine que você tenha um time mas queira jogar baseado em regras suas e não as impostas pela FIFA. Você iria jogar sozinho, concorda? Com o bonsai não é diferente e é muito claro. Se você quer fazer bonsai sem se preocupar com as regras não tem problema algum, desde que esteja se divertindo e não tenha pretensões de conseguir prêmios em exposições. Agora, se você deseja participar de exposições ou trabalhar profissionalmente com bonsai, as regras nesse caso são, na minha opinião, imprescindíveis e determinantes.

O Mestre Kimura por exemplo, quebrou as regras quando se destacou no bonsai nas décadas de 70 e 80, mas o fez sendo mais arrojado, trabalhando com uma proporção mais baixa 2 a 3 pra 1, usando o arame da forma que conhecemos hoje em dia e mantendo um excelente nível de apresentação e refinamento das árvores. E o fez depois de estudar durante anos com um mestre da escola tradicional japonesa.

Trabalhos de Bonsai e Penjing por Masahiko Kimura

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje, no cenário mundial?

Não tem como não citar os mestres Masahiro Kimura e Salvatore Liporace, tanto pela expressão de suas obras quanto pelo trabalho didático feito por ambos. Os dois conseguiram acrescentar muito ao desenvolvimento e respeito pela arte nos seus respectivos países de origem.

Salvatore Liporace - Myrtus communis

Pino de Montaña - Salvatore Liporace

9 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

Respeite a árvore, antes de mais nada; tenha a preocupação de se informar a respeito de todo o cultivo antes de se aventurar sem experiência. Estudar muito é o melhor e mais acertado caminho. Muita paciência e humildade, pois o tempo é quem lapida o trabalho e, quanto mais aprendemos, mais descobrimos o quanto não sabemos nada.

Mas, na minha opinião, o que realmente importa é se divertir e estar em sintonia com a natureza e com seu interior.

10 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

“O cultivador é médico, pintor, arquiteto, escultor e pai ao mesmo tempo. Você tem de conviver com a planta e proporcionar à ela tudo o que necessita nas quatro estações. Em troca, quando o homem entra em diálogo com o bonsai, atinge um estágio superior, um vazio positivo. É mais que uma terapia. É uma relação de amizade.” (Tomio Yamada)

Todo galho bonito já foi uma gema um dia..

O difícil é ser simples…

Abaixo o trabalho do Rock Júnior com acer palmatum :

Esse acer palmatun eu destaco principalmente pelo tamanho. Sou um apaixonado pelas pequenas, não sei se pelo desafio do cultivo e formação, ou pela dificuldade de se conseguir a simplicidade e a beleza em tão pouco volume.

(Out/03) Início do trabalho de estilização. Para a definição da frente do Bonsai, foi feita uma análise cautelosa de todos os ângulos da muda.

O objetivo é aproveitar o máximo o seu movimento natural e distribuição de galhos.

O fator determinante foi o Nebari, que visto em detalhe, percebe-se o seu potencial que deveria ser realçado.

E também suas imperfeições que deveriam ser trabalhadas ou escondidas.

Escolhida a frente, foi feita a 1ª poda, drástica. O transplante foi feito no mesmo dia pelo gde volume de massa verde podado.

Detalhe da gema mantida que se tornou o novo 1º galho da planta após sua brotação.

(Jan/04) 3 meses depois, a planta apresentou uma excelente brotação e a gema se tornou o 1º galho.

Uma referência para a altura final da planta: pouco mais de 10cm.

(Out/05) 2 anos após o início do trabalho já com o nebari em evidência e a estrutura de galhos bem definida.

Para que a copa ficasse bem compacta, eram regulares desfolhas e podas nas pontas da brotação. Observe também a adubação.

Aqui pode-se observar a nova estrutura, o posicionamento dos galhos e a cicatriz da poda brusca bem evoluída. (fundo planta)

(Jan/06) No verão foi feita nova desfolha para melhorar a ramificação e diminuir o tamanho das folhas. (frente planta)

(Abr/07) Foto do Bonsai após 3 anos e meio de trabalho (frente planta)

A cicatriz da poda brusca já fechada e os galhos bem posicionados (fundo planta)

Pra ter uma idéia do tamanho.

Vista superior da brotação na primavera de 2008

Foto na primavera de 2008

Setembro 2010

Primavera 2010

Altura: 12cm., tronco: 4cm.

Entre na galeria e veja mais trabalhos do bonsaísta Rock Júnior:

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Johannes Vermmer

Posted in Arte - Pintura e Desenho with tags , , , , , on 29 d e outubro d e 2010 by aidobonsai

Johannes Vermeer  foi um pintor holandês, que também é conhecido como Vermeer de Delft ou Johannes van der Meer.
Vermeer viveu toda a sua vida na sua terra natal, onde está sepultado na Igreja Velha (Oude Kerk) de Delft.
É o segundo pintor holandês mais famoso e importante do século XVII (um período que é conhecido por Idade de Ouro Holandesa, devido às espantosas conquistas culturais e artísticas do país nessa época), depois de Rembrandt. Os seus quadros são admirados pelas suas cores transparentes, composições inteligentes e brilhante com o uso da luz.


Pouco se sabe da sua vida. Era filho de Reynier Jansz e Dingenum Baltens. Casou-se em 1653 com Catharina Bolenes e teve 15 filhos, dos quais morreram 4 em tenra idade. No mesmo ano juntou-se à guilda de pintores de Saint Lucas (São Lucas). Mais tarde, em 1662 e 1669, foi escolhido para presidir à guilda. Sabe-se que vivia com magros rendimentos como comerciante de arte, e não pela venda dos seus quadros. Por vezes até foi obrigado a pagar com quadros dívidas contraídas nas lojas de comida locais. Morreu muito pobre em 1675. A sua viúva teve de vender todos os quadros que ainda estavam na sua posse ao conselho municipal em troca de uma pequena pensão (uma fonte diz que foi só um quadro: a última obra de Vermeer, intitulada Clio).


Depois da sua morte, Vermeer foi esquecido. Por vezes, os seus quadros foram vendidos com a assinatura de outro pintor para lhe aumentar o valor. Foi só muito recentemente que a grandeza de Vermeer foi reconhecida: em 1866, o historiador de arte Théophile Thoré (pseudónimo de W. Bürger) fez uma declaração nesse sentido, atribuindo 76 pinturas a Vermeer, número esse que foi em breve reduzido por outros estudiosos. No princípio do século XX havia muitos rumores de que ainda existiriam quadros de Vermeer por descobrir.
Conhecem-se hoje muito poucos quadros de Vermeer. Só sobrevivem 35 a 40 trabalhos atribuídos ao pintor holandês. Há opiniões contraditórias quanto à autenticidade de alguns quadros.
A vida do pintor é contracenada no filme “Girl with a Pearl Earring” (2004) do diretor Peter Webber. A atriz Scarlett Johansson interpreta Griet, a moça com brinco de pérola.  Johannes nasceu em 31 de Outubro de 1632, e morreu em 15 de Dezembro de 1675.

Entre na galeria e veja mais obras de Vermmer:

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Entrevista com Luís Galvão

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , on 28 d e outubro d e 2010 by aidobonsai

Dando continuidade às entrevistas de grandes bonsaístas brasileiros, trago aqui o trabalho do artista Luis Galvão.  Seu trabalho com plantas nativas é diferenciado e, sempre que tenho tempo, estou olhando suas fotos e admirando seus bonsais no Facebook. Gostaria de destacar aqui o seu exemplar de  Pau Mulato e Araça Piroca: esses trabalhos poderiam estar na capa de qualquer revista internacional de bonsai. Uma pessoa simples com um trabalho muito sério, esse é o astral que  Luís me passou em sua entrevista. Obrigado ao amigo mais uma vez pela disponibilidade de dividir, aqui no blog, um pouco das suas idéias.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai? Me fale um pouco sobre você, seu espaço e onde ele está localizado.

Faz precisamente 11 (onze) anos e 6 (seis) meses que ingressei nesta arte. Tomei conhecimento através de um amigo de que haveria um curso básico de bonsai para iniciantes em Recife. Na ocasião, este curso me foi muito útil e prazeroso, pois me encontrava com alguns problemas pessoais, e o bonsai ajudou bastante, elevando a minha auto-estima. Atualmente, resido na cidade de Igarassu, região metropolitana do Recife.

Ficus microcarpa

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Bem, para mim não existe precisamente “aquela” espécie, pois cada uma tem a sua particularidade e harmonização.

3 – Como você vê o crescimento e procura pelo bonsai hoje no Brasil?

Hoje, no Brasil, os eventos e exposições que vem se efetivando em diversos estados; também a divulgação pela internet vem atraindo novos adeptos.

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre eles.

Para mim é difícil, pois a maioria dos meus trabalhos é feita de Yamadori, e cada um tem sua história de relacionamento muito grande comigo, até mesmo os feitos de sementes, estaquias e alporquias, sendo esta a técnica que menos utilizo. Agora posso afirmar que os trabalhos que mais chamam a atenção dos visitantes, são os Paus Mulatos e Araçá Pirocas, destacando-se sempre, aquele que você mesmo gostou, durante a visita às fotos do viveiro.

Pau Mulato

5 – Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Não tenho um estilo preferido. Procuro sempre moldar minhas plantas de acordo com as características que consigo visualizar nelas, aprimorando sua estética à sua personalidade.

Pitangueira florida

6 – O que a arte do bonsai agregou à sua vida?

Gosto da natureza desde criança. Aprendi com o bonsai a ser mais cauteloso, pensar mais no futuro, como também respeitar a vida como um todo.

7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística?

Olha! Eu sempre me questiono neste aspecto. Acho que devemos conhecer técnicas e estética para darmos início a um conhecimento mais profundo de um trabalho em que a planta possa sentir-se bem com ela mesma, e ser bem sucedida quando apresentada em público.

Ubaia com fruto

8 – Que bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção, hoje, no cenário mundial?

São vários. Entre eles temos John Naka (in memorian), Kimura, Salvatore Liporace; porém, o que mais me chamou atenção foi o Charles Cicerônio (África do Sul). Tive o prazer de conhecê-lo em um evento do Atelier do Bonsai; daí então passei a admirá-lo como bonsaista e como pessoa, por sinal muito simples, quando o mesmo falou em bom tom que nós vivemos em um país tropical e que deveríamos desenvolver estilos e técnicas para nossas espécies…Isto me marcou bastante.

John Naka - Yose Ue

Masahiko Kimura - Juniperus Chinesis 78cm

Salvatore Liporace - Juniperus chinensis

9- Que perfil e pessoas hoje buscam aprender a arte do bonsai no Brasil?

O universo do querer é muito grande. Existem aqueles que simplesmente admiram a beleza do bonsai e querem tê-lo apenas por vaidade; neste caso, a maioria. E existem aqueles que amam de fato a natureza e vivem afastados dela, tentando, assim, levá-la para as selvas de pedra para realizarem seus sonhos de voltar às suas raízes.

10- O que você acha que as pessoas podem encontrar na arte do bonsai que as ajude tanto no trabalho como na sua vida pessoal?

Existem várias coisas que podemos por em prática em nossas vidas com a arte do bonsai. Primeiramente paciência; depois determinação e bom relacionamento com outras pessoas.

11- Qual erro você acha mais comum nos iniciantes quando começam a se dedicar ao cultivo do bonsai?

Na minha opinião, o erro está na falta de orientação das pessoas que administram cursos para iniciantes. Eles têm obrigação de ensiná-los, como primeiro passo, a fisiologia da espécie e depois, então, a estilização da planta.

12 – Que conselhos você poderia dar para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

O conselho que tenho a dar aos iniciantes é o seguinte: procurar fazer o curso com uma pessoa séria, que goste e respeite a natureza, que trabalhe com seriedade, não visando o lado financeiro querendo apenas comercializar, pois estamos lidando com uma vida que merece respeito, e não querer viver fazendo experiências sem o conhecimento da arte.

13 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetize nossa arte.

Bonsai é vida, é arte, é projeto, é sensibilidade, é compreensão, é dedicação, é afinidade, é sonho, é puramente amor ao que você faz.

A seguir uma galeria de fotos com uma demonstração realizada  por Luis Galvão no evento da Associação dos Bonsaistas de Ribeirão Preto em São Paulo no dia 01/05/2010. A planta escolhida por ele foi um Araça Piroca.

Entre na galeria e veja toda demonstração:

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Entrevista com Sergivaldo Costa

Posted in Bonsai - Bonsaistas do Brasil, Bonsai - Entrevistas no Brasil with tags , , , , on 7 d e outubro d e 2010 by aidobonsai

Em 2008 quando comecei a serie de entrevistas no meu blog, escolhi um dos artistas que mais respeito no Brasil, o amigo Sergivaldo Costa. Hoje 3 de Junho de 2017 estou aqui incluindo na sua entrevista, mais 10 trabalhos é um artista perfeccionista que faz poesia com suas Caliandras. abraço amigo !

Comemorando um ano do meu blog, gostaria de compartilhar com meus leitores e amigos que frequentam o Aido Bonsai, uma série de entrevistas com os bonsaístas brasileiros que chamam a minha atenção com seu trabalho e dedicação à nossa arte. Muito me orgulho em começar com os trabalhos de Sergivaldo Costa. Seus bonsais tem  grande cuidado estético, possuem lindos nebaris e trazem consigo toda beleza das árvores nativas da sua região. Gostaria aqui de agradecer a disponibilidade e a velocidade com que ele atendeu ao meu pedido de entrevista.

1 – Quando você se interessou e começou a se dedicar à arte do bonsai ?

Tudo começou em setembro de 1984, quando estava numa estação rodoviária à espera do ônibus para ir ao trabalho, e encontrei numa banca de revistas a “Edição Especial da Revista dos Amantes da Natureza – BONSAI”. Fiquei fascinado e, a partir dali, comecei a tentar fazer bonsai com todo tipo de plantas que encontrava pela frente: mangueira, jambeiro, pimenteira, flamboyant, etc.

2 – Quais espécies você mais gosta de trabalhar?

Entre as espécies que cultivo, as que mais gosto de trabalhar são o umarizeiro-bravo (Calliandra spinosa) e a jurema-branca (Pithecellobium dumosum). Ambas, pelas suas características (folhas pequenas, fácil enraizamento, brotação vigorosa após as podas e intensa ramificação), são excelentes para o cultivo do bonsai; mas a primeira, pela exuberância da textura do tronco e floração é, sem dúvida, a minha preferida.

Umarizeiro bravo   –   (Calliandra spinosa )

Jurema branca  –  Pithecellobium dumosum

3 – Que espécie você gostaria de trabalhar mas as circustâncias de clima e adaptação não permitem?

Ah, são várias espécies que adoraria poder cultivar mas, infelizmente, o clima da região onde moro não permite. Posso citar, por exemplo, o Acer palmatum e tantos outros áceres; especialmente um que tem uma coloração encantadora: a Azalea satzuki.
Azalea satzuki – US National Arboretum Bonsai Collection

Acer palmatum – Mr. Walter Pall

4 – Dos seus trabalhos, qual você destaca com um carinho especial? Me fale um pouco sobre ele.

Não possuo muitos exemplares na minha coleção, mas é difícil destacar uml. Cada planta tem uma história importante para mim e várias tem significado especial: o Ficus microcarpa, o primogênito; o Pitheceelobium dulce, pela experiência de aprendizado que me proporcionou; o “gigante” araçá-piroca (Myrcia cf. Multiflora), pela sua imponência (para mim) e aventura que foi  fazer esse yamadori,  etc.

Ficus microcarpa – O primogênito em 1996

Ficus microcarpa – O primogênito em 2008

Ficus microcarpa – O primogênito em 2009

Arrebenta boi  –  Myrcia  Multiflora

5 –  Você gosta mais de algum estilo de bonsai em particular? Qual?

Os estilos que mais me atraem no bonsai são aqueles que transmitem a idéia de dramaticidade, como por exemplo, o varrido-pelo-vento (Fukinagashi).

Para saber mais sobre o estilo Fukibagashi acesse: https://aidobonsai.wordpress.com/2009/06/06/a-arvore-e-o-vento/


6 – O que a arte do bonsai agregou na sua vida ?

Sou um pouco estressado e não sei como seria minha vida sem o bonsai. Quando estou entre minhas plantas esqueço-me dos problemas e me sinto mais feliz. Além disso, o bonsai permitiu-me conhecer pessoas diferentes e fazer boas amizades.

Araçá-piroca (Myrcia cf. multiflora)

Calliandra spinosa


7 – Você acha que um bonsai deve seguir uma ordem rígida de técnicas e estética, ou deve seguir uma forma mais livre e artística ?

Eu encontrei minha forma de fazer bonsai e sinto-me realizado com isso. Comecei aprendendo sobre as regras, lendo bastante e analisando os trabalhos de vários mestres, dos quais busquei inspiração.

Sou perfeccionista por natureza e graças a isso não me acomodo com a ilusão de que faço um trabalho maravilhoso. Talvez aí resida minha obsessão pela busca do aprimoramento, pela compreensão de que, por trás de regras supostamente rígidas, exista uma razão lógica para realizarmos, com sucesso, trabalhos agradáveis aos nossos olhos.

Entretanto, penso que cada um deva buscar o caminho que mais o faz sentir-se realizado, quer seja seguindo regras ou de forma livre e descontraída.

Acredito que meu trabalho é uma mistura de tudo aquilo que vi e aprendi.

Umarizeiro-bravo (Calliandra spinosa)

Calliandra spinosa


8 – Qual bonsaísta (um ou mais) chama a sua atenção hoje no cenário mundial?

O Robert Steven, da Indonésia, é o bonsaísta que mais me chama a atenção do cenário mundial atual. Seus trabalhos falam por si só e seus livros mostraram-me caminhos a percorrer que nenhum outro bonsaísta, até então, ousou mostrar.

9 – Que conselhos você daria para quem está começando a se dedicar à arte do bonsai?

1)    Bonsai é tempo e paciência, sinta-se feliz com o que está produzindo no momento, mas não se iluda acreditando que descobriu a fórmula mágica de fazer um novo bonsai artístico rapidamente.

2)    Leia o máximo que puder sobre bonsai, participe de eventos, aprenda com os mais experientes e compartilhe o que já aprendeu.

Carqueijo (Calliandra depauperata)

10 – Diga uma frase, um pensamento, que você ache que sintetiza nossa arte.

Bonsai é arte e, como tal, cada trabalho expressa um sentimento de nossas almas.

Tataré (Pithecellobium tortum)

Entre na galeria ou veja o slide show com mais trabalhos do Bonsaista Sergivaldo Costa.

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Eugenia sprengelli – Aramação e poda

Posted in Bonsai - Meus Trabalhos, Bonsai - Técnicas especiais with tags , , , , , , , on 14 d e setembro d e 2010 by aidobonsai

Desde que comecei a me dedicar à arte do bonsai em 1990, a Eugenia sprengelli sempre foi uma das espécies que eu sempre encontrei nas florálias como opção de trabalho. É uma planta da família das mirtáceas, e algumas de suas espécies recebem o nome de araça no Brasil. Este grupo está distribuido pelas zonas tropicais de todo o mundo, sendo mais diversificado nas Américas. Alguns autores classificam as espécies do género Syzygium (por exemplo, o cravinho) como Eugenia.

Eugenia sprengelli em viveiro, já modelada para paisagismo.

Quando procuramos em viveiros e florálias a espécie para trabalho com bonsai, devemos procurar uma planta sem forma tão definida. As da foto acima já foram modelas para uso em paisagismo . Se você quiser fazer um bonsai estilo Hokidashi (vassoura), tudo bem , não vai demorar para deixar a forma mais natural e com copas mais definidas, cerca de 2 anos. Mas para outros estilos o melhor é encontrar uma planta com mais patamares de copa, com galhos em diversas posições e alturas.

Modelando uma Eugenia sprengelli :

Nas fotos a seguir vou mostrar a modelagem e poda de alguns dos meus trabalhos com esta espécie.

A Eugenia abaixo foi comprada em março de 2010. Quando ela estava no próprio vaso de plástico do viveiro fiz a primeira limpeza retirando todos os galhos secos e deixando a copa menos densa. É fundamental que penetre sol nos galhos desta espécie pois ela brota no seu interior em qualquer idade da sua vida. Isso é muito bom pois permite criar novas copas, e substituir alguma perda importante que aconteça ao longo dos anos. Em Maio eu mudei a planta para um vaso de pré bonsai, cortando 60% das raízes capilares e as grandes raízes de sustentação.

Eugenia sprengelli - maio de 2010

Eugenia sprengelli - FRENTE em setembro de 2010

Nas fotos acima não retirei nenhuma folhagem. A aramação dos galhos secundários foi preenchendo os espaços e criando os patamares das copas. A beleza do trabalho com está espécie é poder observar a estrutura interna dos galhos. Eu gosto de imaginar um Flamboyant gigante, isolado no campo, quando estou modelando. Existe uma árvore no aterro do Flamengo na pista em direção ao aeroporto que deve ter uma copa de 100 metros quadrados.

Flamboyant

No transplante para o vaso de pré bonsai eu uso um substrato bem leve e drenante:

1- 60% de areia de rio (usada em filtro de piscina) ou caco de tijolo com 2mm.

2- 30% de terra negra sem adubo orgânico nenhum. Nunca usar humus de minhoca.

3- 10% de subtrato floreira, usado em hortaliças.

4- Três colheres de sopa de osmocote misturado no substrato. Osmocote é um adubo de liberação controlada.

Eugenia sprenguelli com todos os galhos tencionados e aramados.

Estrutura de arame para tensionamento dos galhos.

Para estruturar um estilo Hokidashi  (vassoura) eu preparo uma estrutura de arame que me permite abaixar qualquer galho em todas as direções ( 360˚). Eu passo por baixo do vaso dois arames de cobre com argolas fechadas em suas pontas. A estrutura é fixa por outro arame cruzando toda parte de cima, unindo os arames e criando os outros pontos de amarração.

Os arames serão dobrados em direção à borda.

Vaso já com os arames preparados.

Detalhe da estrutura de arame para tensionamento dos galhos.

Para abaixar e tencionar os galhos eu uso fios de naylon ou encerados especiais. Este fios encerados são encotrados em casas de esporte e pesca, e tem uma grande durabilidade e resistência. São usados na confecção de varas de pesca para prender os anéis guia. Resistentes á água e ao sol, alguns usados por mim já ficaram um ano sem arrebentar. Eles aguentam tencionar galhos bem grandes, e se for necessário é só colocar duplo ou até triplo.

Abaixo os fios que eu uso:

Fios usados para tencionar galhos na modelagem.

Todos os fios abaixo duram de 6 meses à um tencionando galhos ao ar livre.

1- Araly  Ocean fio de 0,35mm que suporta 20 libras. Ele não aparece nem em fotos, é excelente pois é muito forte e resistente. O naylon tem a vantagem de não penetrar para dentro dos galhos. É escorregadio para finalizar as amarrações, e é preciso saber alguns nós especiais.

2- Encerado para costura em couro. Tem a vantagem de ser muito fácil de amarrar e dar nós firmes. Ele não escorrega e é muito resistente. Aguenta cerca de 30 kilos. Você encontra nas cores verde, marrom, preto e cinza.

3- Linha usada para finalizar os anéis em varas de pesca. É impressionante a durabilidade ao ar livre. Pode molhar, pegar sol que não arrebenta. Encontrada em muitas cores, Eu uso marrom e preta.

4- Fios de cobre bem finos. É preciso mais atenção pois não deve ser colocado em contato direto com o galho. Para não cortar ou deformar os galhos, eu coloco fio de luz, soro ou borracha para protegendo a amarração.

Aramação:

O tencionamento dos galhos não substitui a aramacão. Somente a aramação dá sinuosidade ao galho. Para abaixar os galhos e diminuir  a altura o tencionamento é uma técnica excelente, mas depois de abaixar os galhos grandes eu faço a aramação dos galhos secundários e terciários da planta.

Muitas vezes eu aramo o galho, fazendo uma curvatura e depois faço o tencionamento do mesmo.

Primeiro galho de baixo muito alto.

Eugenia sprengelli já com galho tencionado. Frente

Galho já tencionado, para isolar a copa. O fio está preso na própria raiz.

Eugenia sprengelli com as copas bem definidas. Frente

Eugenia sprengelli com as copas bem definidas. Costas

Eugenia sprengelli. Frente

Eugenia sprengelli. Costas

Eugenia sprengelli. Frente

Eugenia sprengelli. Costas

Penjing com Eugenia sprengelli. Frente

Penjing com Eugenia sprengelli. Costas

Penjing com Eugenia sprengelli. Lateral

Eugenia sprenguelli - 35cm de altura - Frente

Eugenia sprenguelli - 35cm de altura - Costas

Vou complementar esta matéria com mais fotos detalhadas sobre a aramação.

Nirasawa Iasushi

Posted in Arte - Pintura e Desenho with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 1 d e agosto d e 2010 by aidobonsai

Yasushi Nirasawa é um ilustrador e pintor japonês que nasceu na prefeitura de Niigata em Tokio no ano de 1963. Seu primeiro trabalho para o cinema foi animação e criação da concepção artística dos longas de animação: Vampire Hunter e Space Trukers. Ganhou muitos prêmios com a criação dos fantasmas no longa 3D “Final Fantasy, The Spirits Within”.

Entre na galeria e veja 120  trabalhos de Yasushi Nirasawa:

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Yin e Yang

Posted in Arte - Filosofia with tags , , , , , , , on 13 d e julho d e 2010 by aidobonsai

O Estudo do Yin e do Yang:

Yin Yang é, na filosofia chinesa, uma representação do príncipio da dualidade de positivo e negativo, o conceito tem sua origem no Tao (ou Dao), base da filosofia e metafísica da cultura Chinesa. O mundo do guerreiro japonês não era povoado somente por muitos elementos secretos e metafísicos. Ele era obrigado a cuidar de muitos assuntos práticos, mas, para tanto, recorria a meios totalmente diferentes dos que seriam empregados, por exemplo, por um europeu.

Segundo este princípio, duas forças complementares compõem tudo que existe, e do equilíbrio dinâmico entre elas surge todo movimento e mutação. Essas forças são:

Yang: o princípio activo, diurno, luminoso, quente, masculino.

Yin: o princípio passivo, noturno, escuro, frio, feminino

Também é identificado como o tigre e o dragão representando os opostos.

Essas qualidades acima atribuídas a cada uma das dualidade são, não definições, mas analogias que exemplificam a expressão de cada um deles no mundo fenoménico. Os princípios em si mesmos estão implícitos em toda e qualquer manifestação.

Os samurais não estudavam somente os ensinamentos das escolas do Budismo esotérico, mas também estudavam música, a doutrina de Confúcio e muitos outros ramos do conhecimento, como, por exemplo, a teoria do equilíbrio do yin e do yang. Na cosmologia chinesa, esses são os dois pólos fundamentais do universo, respectivamente o princípio negativo e o princípio positivo. Os japoneses chamam-nos de in e yo.

Todos esses estudos desempenhavam um papel na vida do guerreiro. A teoria do yin e do yang era usada, por exemplo, quando ele queria construir uma casa ou, se fosse rico e poderoso, fundar um castelo. Numa ocasião dessas, ele estudaria o equilíbrio entre o yin e o yang para determinar a melhor localização e orientação para o edifício. Sabia que, por mais esforço que empenhasse na fortificação, isso de nada valeria se os arredores não fossem condizentes com o seu objetivo.

O Yin e Yang na estratégia de uma fortificação:

Quanto a isto, as antigas artes da estratégia incluem ensinamentos acerca da importância das direções. Para o norte, por exemplo, é muito importante ter terras altas, ao passo que é uma grande desvantagem ter montanhas elevadas ao sul do edifício. As montanhas elevadas, quando posicionadas ao norte, garantem a proteção do deus chamado Serpente-Tartaruga. A leste, é importante garantir que haja água corrente, como um rio ou ribeiro. Diz-se que assim fica assegurada a proteção desse lado do edifício, pelo poder do Deus Dragão Azul. Ao sul, é vantajoso ter um espaço aberto, campos ou planícies, para obter-se a proteção do deus Pássaro Vermelho. Por fim, a oeste, é melhor ter uma grande estrada, que lhe garante a proteção do Deus Tigre Branco. Diz-se que um local como esse é protegido pelas quatro divindades: ao norte, a Serpente-Tartaruga; a leste, o Dragão Azul; ao sul, o Pássaro Vermelho; e a oeste, o Tigre Branco. Tudo isso faz parte de um sistema de estudos dos efeitos das forças positivas e negativas, sistema esse que as pessoas seguiam sem se desviar. Na moderna cidade de Tóquio, por exemplo, que antigamente era chamada Edo, o castelo de Edo, construído no século XVI pelos shoguns Tokugawa, foi feito exatamente de acordo com essas instruções.

Atualmente, o castelo faz parte do Palácio Imperial. Segundo os ditames do yin e do yang, uma casa construída de acordo com essas instruções tem grandes vantagens.  É interessante perceber que o Japão, o qual é um país situado basicamente num eixo leste-oeste, com uma cadeia de montanhas no centro, tem a maioria da população vivendo ao sul dessa cadeia de montanhas, no lado voltado para o sol, com os fundos de suas casas voltados para as montanhas, que barram os ventos frios da Sibéria. A meu ver, os ditames do yin e do yang resultam de tendências naturais que levam as pessoas a viver dessa maneira. Seguindo essas regras, elas podem viver confortavelmente de acordo com a natureza.
Há pouco tempo, alguns arqueólogos desenterraram espadas do Período dos Túmulos da pré-história do Japão, de 300 a 400 d.e. Algumas delas são espadas retas com incrustações de ouro e prata num lado ou nos dois. Os desenhos das incrustações são os usados para representar as diversas direções da rosa dos ventos. Outras espadas trazem os desenhos dos símbolos do sol e da lua, que também representam as forças yin e yang, negativa e positiva.”


Os Cinco Elementos no Pensamento Japonês Antigo

Seguindo a tradição chinesa, os guerreiros do Japão ocupavam-se não só da interação entre os dois pólos fundamentais do universo como também dos cinco elementos que se combinam de infinitas maneiras para criar tudo o que existe no mundo. Otake Sensei falou um pouco mais sobre esse aspecto da visão de mundo do guerreiro:

Os nomes dos dias da semana correspondem aos princípios do yin e do yang. O primeiro dia da semana é o dia do sol; o segundo, o dia da lua; e os outro cinco dias recebem os nomes dos cinco elementos físicos, determinados pelo estudo dos princípios positivo e negativo, estudo esse que foi feito na Ásia, nos tempos antigos. Os nomes dos dias são os nomes dos cinco elementos: fogo, água, madeira, metal e terra. Segundo os princípios do yin e do yang, esses cinco elementos podem dispor-se de duas maneiras. A primeira é uma ordem na qual geram um ao outro, uma ordem harmônica; a segunda é uma ordem na qual os elementos se dispôem de acordo com suas rivalidades. Nesta segunda ordem, os diversos elementos inevitavelmente destroem uns aos outros.
No relacionamento harmonioso entre os cinco elementos, a madeira produz fogo, que por sua vez transforma a madeira em cinza, ou seja, produz terra. A terra gera o metal; o metal gera a água e a água gera a madeira.


A segunda ordem, baseada no conceito da rivalidade dos elementos, começa com a madeira. Esta quebra a terra; a terra absorve ou impõe limites à água; a água apaga o fogo; o fogo derrete o metal e o metal corta a madeira. O estudo das forças positiva e negativa no universo; o estudo do Budismo dos encantamentos e magias, chamado mikkyo; o estudo dos cinco elementos; e o estudos das fórmulas mágicas – todos esses estudos foram reunidos e desempenhavam um papel na formação dos homens de guerra e generais militares do passado. Esses estudos constituíam a base do currículo deles.
O verdadeiro conteúdo do que tradicionalmente se chama de ‘artes marciais’ não são simplesmente as técnicas de matar. Há muito mais coisas envolvidas. O fundador da Shinto Ryu, Choisai Sensei, propôs estudos que conduzissem ao desenvolvimento da harmonia e de uma coexistência essencialmente pacífica entre o homem e a natureza e entre o homem e seus semelhantes. É nisso que ele pensava quando disse que as artes marciais devem ser as artes da paz. Os melhores guerreiros e generais do passado conheciam, além da arte de matar outros seres humanos, uma larga variedade de outras artes. Sem o seu conteúdo filosófico, as artes marciais não seriam nada além da aquisição de uma força bruta semelhante à dos animais.”

O diagrama do Taiji simboliza o equilíbrio das forças da natureza, da mente e do físico. (Preto) e (branco) integrados num movimento contínuo de geração mútua representam a interação destas forças.

A realidade observada é fluida e em constante mutação, na perspectiva da filosofia chinesa tradicional. Portanto, tudo que existe contém tanto o princípio Yin quanto o Yang. O símbolo Taiji expressa esse conceito: o Yin dá origem ao Yang e o Yang dá origem ao Yin.

Desde os primeiros tempos, os dois pólos arquetípicos da natureza foram representados não apenas pelo claro e pelo escuro, mas, igualmente pelo masculino e pelo feminino, pelo inflexível e pelo dócil, pelo acima e pelo abaixo.

O Yang,o poder criador era associado ao céu e ao Sol, enquanto o Yin corresponde à terra, ao receptivo, feminino e à Lua. O céu está acima e esta cheio de movimento. A terra – na antiga concepção geocêntrica – está em baixo e em repouso. Dessa forma, yin passou a simbolizar o repouso e yang, o movimento. No reino do pensamento, yin é a mente intuitiva, feminina e complexa, ao passo que yang é o intelecto masculino,racional e claro. Yin é a tranqüilidade contemplativa do sábio, yang a vigorosa ação criativa do rei.

O Hotu representa a geração do Tai Chi a partir do vazio

O Hotu representa a geração do Tai Chi a partir do vazio.

Esse diagrama apresenta uma disposição simetrica do yin sombrio e do yang claro . A simetria, contudo não é estática. É uma simetria rotacional que sugere,de forma eloquente, um continuo movimento cíclico. Os dois pontos do diagrama simbolizam a idéia de que toda vez que cada uma das forças atinge seu ponto extremo, manifesta dentro de si a semente de seu oposto


Yin Yang e a arte da espada.

Musashi Miyamoto

O mais famoso espadachim do Japão medieval foi Musashi Miyamoto. Foi ele um homem extremamente culto, poeta, artista e escritor. Seu Gorin no sho, ou Livro dos Cinco Anéis, é um clássico da literatura japonesa, mas a reputação de Musashi advém sobretudo de ele ter matado centenas de adversários em duelos.


Miyamoto, era muito forte, a ponto de ser freqüentemente considerado um kensei ou ‘santo da espada’ aqui no Japão. Entretanto, esse homem não se casou, não teve filhos, não teve descendente nenhum, e só teve três discípulos que estudaram a sua arte. Praticava um método de treinamento associado a um grau incomum de austeridade, algo que o homem médio não tem a menor esperança de conseguir realizar.
Ele não dormia nunca em leitos macios, por exemplo; não tomava banho nem penteava o cabelo. Não há dúvida de que esse tipo de treinamento é algo extraordinário, mas fico a me perguntar se ele acaso não sacrificou a própria humanidade para realizar-se na arte do espadachim.


Até mesmo a humilde erva ao redor do dojô gasta muita energia para tentar crescer, tentar gerar o caule e as folhas e, depois, tentar produzir uma semente. Desenvolveu meios de encorajar os passarinhos a comer suas sementes e transportá-las para outros lugares. Até a erva do campo tenta deixar descendentes. Em virtude desse esforço, muito embora ela possa morrer nessa tentativa, na primavera seguinte seus descendentes enchem de flores o campo onde ela se encontrava.
Parece-me que há aí uma lição para a humanidade. O ser humano que tem um objetivo tão fixo que não o deixa sentir o forte desejo de ver florescer os seus descendentes é uma pessoa sem coração, cujo valor enquanto ser humano é muito baixo.
Ao contrário de Miyamoto, Choisai Sensei viveu até os 102 anos de idade sem sofrer nenhum infortúnio sério numa era marcada pela luta e pela guerra. A família de Choisai Sensei continua até hoje, numa linha ininterrupta de vinte gerações. O atual Mestre da Ryu é um descendente direto de Choisai Sensei. Em virtude de suas excelentes qualidades humanas, sua família vem se perpetuando há vinte gerações.
É notável que qualquer família possa traçar uma linhagem de vinte gerações. Quando consideramos que essa família esteve ensinando uma arte marcial no decorrer de todas essas vinte gerações; e que ela viveu, entre outros, pelo períodohistórico Segoku (a Era dos Estados Litigantes que começou em 1470 e durou cem anos, e foi o século mais confuso e belicoso da história do Japão), esse feito torna-se ainda mais notável.
Não consigo deixar de me impressionar pelo esforço despendido pelas sucessivas gerações de mestres para preservar, transmitir e desenvolver as tradições da Katori Shinto Ryu e da família lizasa. O fato de que as técnicas, os métodos de treinamento e os ensinamentos espirituais da Katori Shinto Ryu foram preservados intactos é o resultado direto da natureza preciosa dos ensinamentos contidos nessa tradição.”
o Papel do Zen
Muitos mestres afirmam que a pessoa que quer tornar-se especialista em artes marciais tem de sentar-se e praticar também a meditação zen.