O Paradoxo das artes marciais.

Quando as artes marciais primitivas chegaram ao Oriente, lá lançaram raízes e começaram o gradual processo de diversificação que gerou seus vários ramos, todos eles perfeitamente desenvolvidos. Infelizmente, no que diz respeito ao primeiro crescimento e à disseminação das artes marciais, a esmagadora maioria dos indícios de que dispomos é de mitos, especulações e histórias transmitidas oralmente. Não obstante, certos fragmentos de informação, tirados das antigas tradições artísticas e literárias da China e da Índia, dão a entender que as artes marciais começaram a desenvolver-se nessas civilizações em algum momento entre o século V a.c., quando começou a manufatura de espadas em grande quantidade na China, e o século III d. c., em que os exercícios nos quais baseiam-se as artes marciais foram escritos pela primeira vez.

Bodhidarma

Segundo a lenda, depois de chegar ao Mosteiro de Songshan Shaolin, Bodhidharma passou nove anos olhando para a parede de uma caverna, “ouvindo as formigas gritar”. Esse fato impressionou a tal ponto um dos monges que este cortou fora uma de suas mãos como gesto simbólico de compaixão. A cena está representada nesta pintura feita no século XIII, na época da Dinastia Sung.

Bodhidarma

Caso você ache tudo isso muito vago, compare-o com os esforços que se fazem para determinar a data de certos acontecimentos essenciais para o desenvolvimento de outras artes antigas – a culinária, a fabricação de vinhos, a fabricação de queijos ou a própria agricultura, por exemplo. As origens dessas habilidades não podem ser determinadas com precisão, mas de tempos em tempos surge um documento que prova que, em certa data, as técnicas haviam mudado.
É exíguo o número de documentos ou objetos que se referem aos primórdios da história das artes marciais, mas muitos artistas marciais acham que sua arte começou na China, no começo do século VI d.e.


A crença deles baseia-se numa lenda segundo a qual um monge indiano chamado Bodhidharma chegou certo dia ao templo e mosteiro de Songshan Shaolin, ao pé das Montanhas Songshan, no Reino de Wei, na China, onde passou a ensinar um tipo novo e mais direto de Budismo, que envolvia longos períodos de meditação estática. Diz-se que Bodhidharma passou nove anos sentado de frente para a parede de uma caverna, e instruiu os outros monges a fazer a mesma coisa.
Para ajudá-los a agüentar as longas horas de meditação, ensinou-lhes técnicas de respiração e exercícios para desenvolver-lhes a força e a capacidade de defender-se na remota e montanhosa região onde residiam.
Acredita-se que foi dos ensinamentos de Bodhidharma que nasceu a escola dhyana ou meditativa do Budismo, chamada Ch’an pelos chineses e Zen pelos japoneses. Diz-se ainda que a arte marcial conhecida como Shaolin ch’uanfa, ou boxe do Templo de Shaolin, desenvolveu-se a partir dos exercícios transmitidos pelo monge indiano. Muitas artes marciais chinesas e japonesas nasceram dessa tradição. Abaixo foto de uma demostração de Kung Fu Shaolin Norte com Espada.


Há muitas dúvidas acerca da realidade dessa lenda, mas, se ela for verdadeira, alguns dos fatos históricos que ela parece revelar mostram-se muito interessantes. A lenda reflete o fato de que o interesse mútuo pelo Budismo garantiu o contato entre a China e a Índia no século VI d.e., fato esse que é confirmado pela obra do Dr. Joseph Needham, grande siriólogo do século XX. Além disso, significa que, desde as épocas mais recuadas, a meditação e os exercícios marciais eram aspectos complementares do Budismo: a primeira, passiva e estática; o segundo, ativo e móvel.
Não obstante, o estudo cuidadoso das fontes históricas mostra que as artes marciais já existiam e floresciam na Índia e na China desde muito tempo antes da viagem de Bodhidharma.


As Tradições de Luta do Extremo Oriente

Como era a vida militar na China e na Índia entre 500 a. e. e o século III d. e.? Será que apresentava as condições adequadas para a evolução de uma forma especializada de luta que mais tarde poderia ser identificada como precursora das artes marciais de hoje em dia?

Samurai lutando com Naginata.

OS CAMINHOS QUE LEVAM AO ORIENTE

Até o século II d.C, a civilização chinesa desenvolveu-se isolada do Ocidente. Embora já houvesse comércio entre a Índia e a Mesopotãmia desde cerca de 2500 a.C, pensa-se que só no século VI a.C é que começaram os intercâmbios comerciais entre a Índia e a China.
Muitos’séculos antes de abrirem-se as rotas de comércio com a Índia, a China já fabricava a seda. Porém, foi só quando terminou o período feudal da história chinesa e começou a dinastia Han (206 a.C-24 d.C) – a qual disseminou por todo o país a sua influência civilizadora – que se fizeram as primeiras tentativas de exportá-la. O Imperador Han Wu Ti (140-87 a.C) enviou as primeiras embaixadas chinesas rumo ao Ocidente, e estas foram logo seguidas por mercadores e comerciantes que levavam consigo fardos de seda fina e macia, um tecido desconhecir fora da China.
Os indianos vendiam a seda aos persas, que a trocavam com mercadores que iam à Síria. Na virada do milênio, caravanas gigantescas partiam de Ch’ang-an (a moderna Sian) e, passando por Kashgar, Merv e pelas grandes cidades caravaneiras de Hamadan, Damghan e Bagdá, percorriam mais de nove mil quilômetros e chegavam a Tiro, Antioquia e Palmira, nas fronteiras do Império Romano.

A linda e enigmática India.

A partir do século VI d.e., porém, a Rota da Seda começou a perder sua importância. Dois monges cristâos conseguiram contrabandear para Constantinopla os ovos do bicho-da-seda, e a seda começou a ser fabricada no Ocidente.
Porém, nessa época, um outro tipo de intercâmbio estabelecera-se ao longo das antigas rotas. A Rota da Seda era freqüentemente percorrida por monges que atuavam como diplomatas, estabelecendo embaixadas em países estrangeiros sob a. forma de templos e mosteiros, que se tornaram centros para a transmissâo de influências culturais.
Bodhidharma foi um desses monges. Segundo a tradiçâo, ele viajou de Madras a Nanquim de barco, parando várias vezes ao longo do caminho. De Nanquim partiu em viagem pela China e finalmente chegou ao Templo de Shaolin, nas Montanhas de Songshan, na China Central, onde estabeleceu a escola dhyana (Ch’an ou Zen) do Budismo e ensinou os exercícios em que supostamente baseiam-se as artes marciais modernas.

Rota de Madras

Entre e leia o resto da matéria o Paradoxo das Artes Marciais:


Os dados disponíveis nunca foram pesquisados nem apresentados com a intenção de dar uma resposta a essa pergunta acadêmica específica, mas os antigos sistemas militares da China e da Índia foram objeto de muitos registros, de maneira que dispomos de informações suficientes para formar uma imagem bastante correta da vida militar daquela época e nesses lugares. Tanto a guerra quanto as artes marciais são, essencialmente, formas de luta; por isso, convém examinarmos rapidamente o desenvolvimento das tradições de luta do Extremo Oriente.
Antes de 500 a.c., a China enquanto nação não existia. O território atualmente ocupado pela República Popular da China era dividido num grande número de Estados menores e independentes, cujos sistemas sociais obedeciam a uma estrutura essencialmente feudal.
As guerras ocorriam a todo instante, mas os exércitos de camponeses, comandados pelos nobres locais, geralmente eram pequenos. Os grandes generais eram levados em carros de batalha ao campo de guerra para desferir flechas sobre a infantaria camponesa, fraca e mal armada, reunida por seus adversários. Em certas ocasiões, os chefes de exércitos rivais engajavam-se em combate homem a homem, perante ambos os exércitos, para decidir a questão. Esta última forma de guerra era, na prática, uma arte marcial.
As guerras eram travadas de forma altamente ritualística. Eram proibidas em certas épocas e em determinadas circunstâncias, como, por exemplo, depois da morte de um comandante ou rei. Às vezes, os exércitos esperavam por d.ias e dias enquanto augúrios e oráculos eram consultados para se determinar a hora certa para o ataque.
Aos poucos, os pequenos Estados foram sendo engolidos por Estados maiores e, à medida que a prosperidade aumentava, surgiram na China cidades de até 750.000 habitantes. No fim do século VI a.c., o comércio entre esses grandes centros populacionais expandira-se muito. Os comerciantes compravam e vendiam, entre outras coisas, as ferramentas e armas que os mestres ferreiros começavam então a fabricar em grande quantidade. Foi naquela época que se aperfeiçoou um aço de baixo teor de carbono, de modo que os primeiros reis da Era dos Estados Litigantes C 480-221 a.C) puderam já equipar seus exércitos com armas fabricadas na forja e guardadas em arsenais.

Para que esses exércitos fossem equipados, alimentados e treinados, foi preciso expandir a antiga máquina burocrática do Estado. A arte da guerra, antes restrita aos generais aristocratas, passou a ser praticada por oficiais e homens profissionalmente treinados e equipados.
Por causa disso, as guerras tornaram-se muito mais destrutivas, traiçoeiras e decisivas. Exércitos de centenas de milhares de homens, acompanhados por todo o pessoal de apoio, começaram então a sair a campo.
Com os exércitos profissionais surgiu uma nova geração de especialistas: engenheiros, cartógrafos, especialistas em sinalização, em operações anfíbias, etc. Dentre eles, o mais famoso foi Sun Tzu, brilhante tático e estrategista cujo livro, A Arte da Guerra Cc. 350 a.C), ainda é de leitura obrigatória para quem quer que queira fazer carreira militar. Diz-se que os pensamentos de Sun Tzu sobre a guerra influenciaram Mao Tse-tung.
Portanto, no ano 300 a.C, as artes militares já não eram mais simplesmente artes marciais praticadas por generais de feudo. Não obstante, as’ condições presentes em outros campos da vida chinesa podem ter estimulado o desenvolvimento das artes marciais.
No decorrer de toda a Era dos Estados Litigantes e mesmo depois, a zona rural da China era infestada de bandidos e foras-da-Iei. Porém, o comércio entre os diversos Estados era fonte de grandes lucros. Assim, os comerciantes empregavam guarda-costas para proteger-se a si mesmos e às suas mercadorias dos bandoleiros.
O emprego de guarda-costas – profissão em que o combate corpo-a-corpo é uma coisa esperada – era perfeitamente adequado ao artista marcial. Acompanhando caravanas de comércio que iam a partes distantes do país, os guarda-costas teriam sido expostos aos rigores de longas jornadas sob condições inóspitas, bem como aos conhecimentos e técnicas de outros guarda-costas. Pode ser que as artes marciais do Oriente tenham evoluído sob estas circunstâncias.
Não obstante, o surgimento de uma arte marcial não depende somente da prática de certos movimentos e da capacidade de resistir a provações físicas. As artes marciais também têm um conteúdo intelectual e um sistema de valores; baseiam-se numa visão específica do universo e do lugar que o homem ocupa dentro dele.
Os dois maiores filósofos da China haviam vivido na primeira metade do segundo milênio a.C Por volta de 500 a.C, Confúcio estabeleceu suas teorias

grandes centros populacionais expandira-se muito. Os comerciantes compravam e vendiam, entre outras coisas, as ferramentas e armas que os mestres ferreiros começavam então a fabricar em grande quantidade. Foi naquela época que se aperfeiçoou um aço de baixo teor de carbono, de modo que os primeiros reis da Era dos Estados Litigantes C 480-221 a.C) puderam já equipar seus exércitos com armas fabricadas na forja e guardadas em arsenais.
Para que esses exércitos fossem equipados, alimentados e treinados, foi preciso expandir a antiga máquina burocrática do Estado. A arte da guerra, antes restrita aos generais aristocratas, passou a ser praticada por oficiais e homens profissionalmente treinados e equipados.
Por causa disso, as guerras tornaram-se muito mais destrutivas, traiçoeiras e decisivas. Exércitos de centenas de milhares de homens, acompanhados por todo o pessoal de apoio, começaram então a sair a campo.
Com os exércitos profissionais surgiu uma nova geração de especialistas: engenheiros, cartógrafos, especialistas em sinalização, em operações anfíbias, etc. Dentre eles, o mais famoso foi Sun Tzu, brilhante tático e estrategista cujo livro, A Arte da Guerra Cc. 350 a.C), ainda é de leitura obrigatória para quem quer que queira fazer carreira militar. Diz-se que os pensamentos de Sun Tzu sobre a guerra influenciaram Mao Tse-tung.

Pintura ilustrando o estrategista Sun Tzu.


Portanto, no ano 300 a.C, as artes militares já não eram mais simplesmente artes marciais praticadas por generais de feudo. Não obstante, as’ condições presentes em outros campos da vida chinesa podem ter estimulado o desenvolvimento das artes marciais.
No decorrer de toda a Era dos Estados Litigantes e mesmo depois, a zona rural da China era infestada de bandidos e foras-da-Iei. Porém, o comércio entre os diversos Estados era fonte de grandes lucros. Assim, os comerciantes empregavam guarda-costas para proteger-se a si mesmos e às suas mercadorias dos bandoleiros.
O emprego de guarda-costas – profissão em que o combate corpo-a-corpo é uma coisa esperada – era perfeitamente adequado ao artista marcial. Acompanhando caravanas de comércio que iam a partes distantes do país, os guarda-costas teriam sido expostos aos rigores de longas jornadas sob condições inóspitas, bem como aos conhecimentos e técnicas de outros guarda-costas. Pode ser que as artes marciais do Oriente tenham evoluído sob estas circunstâncias.
Não obstante, o surgimento de uma arte marcial não depende somente da prática de certos movimentos e da capacidade de resistir a provações físicas. As artes marciais também têm um conteúdo intelectual e um sistema de valores; baseiam-se numa visão específica do universo e do lugar que o homem ocupa dentro dele.
Os dois maiores filósofos da China haviam vivido na primeira metade do segundo milênio a.C Por volta de 500 a.C.

O relevo da foto a seguir, entalhado na parede de um dos templos de Kanchipuram, do século VII, retrata o estudioso e peregrino Hsüan-tsang, que foi para lá (para a Índia) por volta de 640 d.e. Era conhecido como Tripitaka, e as lendas escritas por Wu Ch’eng-en no século XVI baseiam-se em seus relatos de viagem, a respeito do homem e da sociedade humana.

Segundo se pensa, Lao Tzu expôs sua visão mística do ser humano e o tao, ou “via da natureza”, cerca de 300 a.C O Taoísmo reveste-se de uma importância particular na história das artes marciais chinesas, embora só em tempos recentes as artes marciais taoístas tenham se espalhado para fora da Ásia chinesa.
Do mesmo modo, a filosofia do Budismo, fundado pelo príncipe Siddhartha Gautama, o Buda (que nasceu no nordeste da Índia por volta de 560 a.C), influenciou profundamente os sistemas marciais de todos os países onde as duas correntes – a budista e a marcial- se encontraram: a China, o Japão, a própria Índia e os países do Sudeste Asiático.
Foi, portanto, na segunda metade do primeiro milênio a.C que se constituíram as filosofias das quais dependem as artes marciais. É verdade que certas artes só surgiram numa época muito posterior, mas as condiçôes para o seu desenvolvimento estabeleceram-se quando esses credos foram divulgados.
A Índia sempre foi uma terra de guerreiros. O país em que nasceu o Buda era composto de um grande número de pequenos reinos. Em certas regiões, as tensões geravam um conflito perpétuo entre os reinos, o qual se manifestava em guerras e escaramuças. Mesmo assim, houve épocas, como no reinado do grande imperador Ashoka (268-231 a.C), em que grandes regiões da Índia foram unificadas sob o comando de um único soberano. Ashoka, imperador da Dinastia Maurya, cujo impeno abarcava cerca de dois terços do sub continente indiano, chegou ao poder na qualidade de rei-guerreiro; mas, quando aderiu ao Budismo, a prudência mandou-lhe que renunciasse às guerras.

No decorrer da segunda metade do primeiro milênio a.c., o sul da Índia, em específico, foi governado por sucessivas dinastias de reis de diferentes convicções religiosas. Não obstante, as guerras movidas entre esses reis eram geralmente de pequena escala, mais ritualizadas e menos destrutivas do que as que aconteciam na China na mesma época.
Parece também que a Índia não conheceu o mesmo grau de especialização

O Budismo jamais chegou a superar o Hinduísmo tradicional na qualidade de principal religião da Índia, embora tenha sobrevivido nesse país por mais de 1500 anos. Mas, quando os ensinamentos budistas chegaram à China, atraíram imediatamente a atenção de cortesãos, estudiosos e aristocratas.


O ENIGMA DE BODHIDHARMA

Segundo alguns indícios de que dispomos, no ano de 520 d.C, um monge indiano, supostamente nascido em Kanchipuram, perto de Madras, viajou para a cidade de Kuang (a moderna Cantão), onde foi recebido em audiência pelo imperador Wu Ti, da Dinastia Liang. De lá partiu para um mosteiro no Reino de Wei, onde passava longas horas em meditação.
Se for verdadeira a lenda de Bodhidharma e ele de fato tiver visitado o Mosteiro de Songshan Shaolin, então ele é duplamente importante na história das artes marciais, pois não somente criou o estilo de luta de Shaolin como também foi o primeiro patriarca do Budismo Ch’an ou Zen.
Como tal, é ele o santo padroeiro da maioria dos artistas marciais japoneses, que chamam-no de Dharuma e exibem sua imagem em lugar de honra nos dojôs e salas de treinamento. Nessas imagens, Bodhidharma sempre tem aspecto feio. Tem penetrantes olhos azuis, barba e cabelos escuros, longos e desgrenhados.
O criador do estilo de luta de Shaolin e do Budismo Ch’an ou Zen é um personagem misterioso. Escreveram-se as biografias de muitos monges contemporâneos seus, ao passo que ele, o mais importante de todos para os seguidores de seus ensinamentos, foi ignorado. Só existe um relato de uma pessoa que o viu diretamente. Trata-se de um texto escrito por Yang Hsuanchih, cidadão do estado chinês de Lo-yang, na moderna Honan. O texto foi escrito em 547 d.C e é intitulado Lo-yang chia-Ian-chi (Crônica dos Mosteiros de Lo-yang).
O autor fala de uma ocasião em que subiu ao grande Templo Yung Ning acompanhado pelo prefeito da cidade de Lo-yang, e lá encontrou Bodhidharma: ” … naquela época houve também o Sramana das terras do Ocidente, Bodhidharma, que não era outra coisa senão um Hon do Reino de Posseur [Pérsia]. Perante as maravilhas do templo, disse que já tinha 150 anos de idade e viajara por muitos e diversos reinos a norte, sul, leste e oeste, e que não encontrara nenhum outro templo que se igualasse a esse em beleza.”

É possível fixar a data desse encontro. O templo foi construído em 516. Foi destruído pelo fogo em 535, mas desde 528 já havia sido transformado num quartel de exércitos. Isso significa que o encontro deve ter acontecido entre 516 e 528.

É muito útil dispor de um relato que parece provar a existência de Bodhidharma, mas é preciso examiná-lo com cuidado. Os textos chineses eram copiados muitas vezes, e os erros de cópia eram freqüentes. Além disso, ocorrem erros quando da tradução do texto para outras línguas. Esta é uma versão em português da tradução inglesa de uma tradução feita do chinês para o francês por um famoso orientalista, Paul Pelliot; por isso, está três vezes mais sujeita ao erro.

Mas, supondo que a tradução esteja certa, o que significa o texto? Qual a língua em que Bodhidharma falou com o autor? Será que falava bem o chinês? Será que quis mesmo dizer que já tinha 150 anos de idade? Caso o quisesse, será que estava falando o que considerava ser a verdade ou estava se expressando por enigmas, à maneira dos monges Ch’an e Zen de épocas posteriores?
Acaso a expressão “não era outra coisa senão um Hon de Posseur” significa que ele era mesmo tal coisa, ou simplesmente se parecia com um Hon? Na opinião de Pelliot, a frase significa um “Hon de olhos verde-azulados”. A pessoa assim descrita poderia ser indiana, mesmo que tivesse a pele clara. No noroeste da Índia há muita gente de pele clara e olhos azuis.
Depois desse relato, que é frustrante por ser incompleto, Bodhidharma quase não é mencionado em texto nenhum por quase quinhentos anos. Não é mencionado nem mesmo por Hsüan-tsang, peregrino e erudito chinês do século VII, que visitou tanto o Templo de Shaolin quanto a cidade de Kanchipuram cerca de cem anos depois. Mas, de repente, por volta do século XI, surgem livros que contêm narrativas longas e complexas da estadia de Bodhidharma na China e da sua doutrina das artes marciais.
Essa lacuna de quatro séculos parece inexplicável. Existe, porém, uma linha de raciocínio que se coaduna com os fatos e os explica.
Quando surgiram os ensinamentos do Ch’an ou Zen, eles eram considerados radicais, talvez até heréticos. Os eruditos chineses da época dedicavam a vida ao estudo de manuscritos e suas práticas religiosas giravam em torno de elaboradíssimos rituais realizados em templos.
Já na escola Ch’an, as práticas religiosas eram simples, não havia manuscritos e nem mesmo o Buda era necessário. Diz a doutrina do Budismo Ch’an: “Se olhares fixo para a tua essência interior, encontrarás o Buda.” O Budismo Ch’an, religião cujos adeptos buscam a iluminação repentina, não tem objetos de veneração.
Uma marcante citação de um texto de cerca do ano 840 dá apoio a essa tese. Diz-se que o mestre ch’an Hsuan-Chien disse o seguinte: “Não há nem Budas nem Patriarcas. Bodhidharma não passava de um velho bárbaro, de barba … as doutrinas sagradas … pedaços de papel que servem para limpar o pus das feridas.” Mesmo Bodhidharma, contado como um dos mais importantes dentre os santos, era desnecessário para as crenças do Ch’an.
O Ch’an veio a püblico na época da perseguição às outras escolas budistas que ocorreu na China em 845 d.e. O movimento dirigia-se contra a riqueza e o poder acumulados pelos mosteiros; mas como o Ch’an não dependia, para a sua existência, da acumulação de riquezas e objetos materiais, acabou escapando à perseguição.

Mas, na mesma medida em que a escola deixou de ser considerada herética e assim sobreviveu, estabeleceu-se e prosperou, os monges, como todos os demais religiosos, sem dúvida sentiram a necessidade de escrever a biografia do seu grande fundador e divulgar sua doutrina.
Os livros que expunham a doutrina de Bodhidharma foram todos escritos muito tempo depois da sua morte; e os livros de exercícios provavelmente demoraram cerca de mil anos para ser escritos. Assim, os possíveis fragmentos que eles ainda trazem da doutrina original de Bodhidharma sobre as artes marciais devem ter sido modificados e diluídos no decorrer dos séculos de tradição oral, a tal ponto que hoje são praticamente irreconhecíveis.
Uma vez que todos os registros do Templo de Shaolin foram queimados em 1928, é improvável que surjam ainda outros documentos que provem que Bodhidharma merece de fato o título de patriarca-mor do Ch’an e das artes marciais. Não obstante, seus ensinamentos sobrevivem nos praticantes das artes que ele supostamente teria criado.
Foi Hung I-hsiang, mestre chinês das artes marciais internas, que finalmente nos deixou claro qual foi a importância da doutrina de Bodhidharma. Explicou-nos que foi Bodhidharma quem introduziu na China a noção de wu-te, ou virtude marcial. Essa noção engloba as qualidades de disciplina, autocontrole, humildade e respeito pela vida humana. Nas palavras de Mestre Hung:
“Antes da chegada de Ta-Mo, os artistas marciais chineses treinavam sobretudo para lutar e gostavam de oprimir e amedrontar os mais fracos. TaMo trouxe o wu-te e ensinou que as artes marciais existem na verdade para promover o progresso espiritual e a saúde, e não as brigas.”


Registros Históricos


Os estilos militares da China e da Índia eram totalmente diferentes um do outro, mas existe uma relação de proximidade entre as artes marciais dos dois países. Não só existem padrões semelhantes de movimento no kalaripayit praticado pelo camponês do sul da Índia e no kung-fu praticado pelo garçom de Hong Kong, por exemplo, como também até mesmo as técnicas secretas são utilizadas de maneira semelhante.
Qualquer um que aceite como verdadeira a história de Bodhidharma não terá dificuldade alguma para compreender esse fato, mas os registros escritos mais antigos não lançam luz alguma sobre as origens dessa semelhança.

Recentemente, os antigos textos chineses foram objeto de muitas pesquisas para saber se as artes marciais já existiam na China antes da vinda de Bodhidharma, no século VI d.e. A descoberta mais conhecida foi a de um conjunto de exercícios registrados por um famoso médico, Hua Tua. Os exercícios eram baseados nos movimentos de cinco animais: o tigre, o urso, o macaco, a cegonha e o veado. Essa relação entre os animais e o movimento é fundamental até hoje nas artes marciais chinesas, mas o mais significativo é que Hua Tua viveu na época dos Três Reinos (220-265 d.e.), ou seja, muito antes de Bodhidharma chegar à China.
Num livro recém-publicado, Shaolin Kung-fu, os autores chineses – os
acadêmicos Ying li e Weng Yi – afirmam que um afresco numa tumba da Dinastia Han (cerca de 200 d.e.) mostra dois homens em posturas típicas das artes marciais. Se for autêntico, esse afresco, chamado Sumô (embora não tenha semelhança alguma com a forma de luta japonesa chamada sumõ) , é a mais antiga pintura que representa algo relacionado às artes marciais; mas, pela fotografia de que dispomos, ele parece ter sido repintado.
Na mesma época em que essa imagem supostamente foi pintada, antigas doutrinas estavam sendo postas por escrito na língua tâmil do sul da Índia. Entre os textos assim escritos há alguns shastras – antigos tratados indianos – que descrevem detalhadamente os métodos de ataque aos pontos vitais (aqueles pontos do corpo que, quando atingidos com precisão, podem causar a perda de consciência ou a morte), bem como o uso de armas em combate. Os indianos dizem que esses textos fazem parte de um legado oral muito mais antigo, mas é evidente que não há nenhum registro escrito que o prove.

Trocas Culturais

As fontes escritas conhecidas não resolvem a controvérsia sobre quais são as artes marciais mais antigas, as da Índia ou as da China. Mas, se existe uma relação entre as artes desses dois países, é preciso que, no passado, tenha havido um intercãmbio de idéias entre as pessoas que necessitavam das capacidades que as artes marciais podem oferecer. Por séculos e séculos, dois tipos de pessoas compunham a maior parte dos viajantes que jornadeavam entre a Índia e a China: os monges, que eram também eruditos e diplomatas, e os comerciantes. As rotas foram abertas pelo comércio, e os mercadores que empreendiam aquelas intermináveis viagens certamente precisavam da proteção de guardacostas, como sempre haviam precisado nas viagens de comércio que faziam dentro da China.
O emprego de guarda-costas dava, a quem o exercia, um treinamento de combate homem a homem, que é exatamente o estilo de combate em que se baseiam as artes marciais. Além disso, na medida em que viajavam com caravanas comerciais, os guarda-costas recebiam as influências dos diversos estilos de luta praticados pelas diversas raças encontradas ao longo do caminho. Dessa maneira, o conhecimento das artes marciais ter-se-ia disseminado fora das fronteiras da Índia.
A viagem da Índia à China era sempre árdua. Uma das rotas passava pelo Afeganistão e, depois, ao norte ou ao sul do grande deserto de Takla Makan, que fica a norte do Tibete e a leste da China. No fim do século II a.C, a maior parte da viagem era feita através das antigas Rotas da Seda, pelas quais os chineses faziam escoar a sua produção de seda até as fronteiras do Império Romano, na Síria.
Para viajar por essas estradas, é preciso ter uma enorme determinação. Peter Fleming, o grande viajante inglês da década de 1930, irmão de Ian Fleming, teve de bater-se contra o mau tempo, a burocracia e os chefes feudais em sua viagem pela Antiga Rota da Seda. O mesmo devia acontecer aos viajantes que forjaram os vínculos com o Ocidente, uns dois mil anos antes disso.
Os mercadores começaram a usar essa estrada antes do nascimento do Buda, em meados do século VI a.C Mas, à medida que o Budismo foi ganhando força, monges budistas começaram a fazer-lhes companhia nas viagens. Conseqüentemente, em 65 d.C já havia uma comunidade budista fortemente estabelecida na China.

Esse fato assinala o início de uma forte influência exercida pela cultura e filosofia indianas sobre os costumes e os modos de pensar da China. O Budismo aos poucos se tornou uma força poderosa dentro da China e, quando isso aconteceu, violentos conflitos de poder desencadearam-se entre os taoístas e os
adeptos da religião “invasora”.
Enquanto isso, os monges indianos que viajavam à China para disseminar
a doutrina do Buda cruzavam, na estrada, com monges chineses que iam à Índia. Estes últimos eram peregrinos que visitavam os lugares sagrados pelos quais passara o Buda durante a sua vida e buscavam os sutras e shastras da doutrina búdica, que haviam sido escritos da maneira tradicional, sobre folhas de palmeira.
O mais famoso desses eruditos peregrinos foi Hsúan-tsang (c. 600-664 d.C.), que percorreu a Índia inteira entre 629 e 645. Nesse país, foi chamado de Tripitaka, e como tal foi imortalizado na pele do sacerdote-peregrino do Macaco, uma coletânea de lendas escritas no século XVI pelo autor chinês Wu
Ch’eng-eh.
Tripitaka viajou à Índia para encontrar os textos sagrados e nessa viagem
foi acompanhado pelo Macaco e outros três espíritos-guardiães, todos eles exímios artistas marciais. As lendas, que se constituíram depois do século VII, em que viveu Hsúan-tsang, são repletas de descrições das épicas batalhas que eles travaram contra os demõnios e monstros que encontraram ao longo do caminho.
Em suas viagens ao sul da Índia, Hsúan-tsang visitou Kanchipuram, o possívellocal de nascimento de Bodhidharma, onde se tornou amigo do rei e onde sua face ainda pode ser vista num alto-relevo entalhado nas paredes de um templo construído pouco tempo depois de sua visita.
Os perigos da viagem não eram imaginários. Ele foi capturado por bandi-
dos mas escapou porque, quando rezou pedindo ajuda, entrou em transe e um forte vento começou a soprar, assustando os bandoleiros.
Outro monge, 1- Tsing, no livro A Religião Budista Praticada na Índia e no Arquipélago Malaio, escrito entre 671 e 695, descreveu o modo pelo qual ele mesmo escapou da morte:
“A uma distância de dez dias de jornada … passamos por uma grande mon-
tanha e por pântanos; o passo é perigoso e difícil de atravessar… Naquela ocasião, eu, 1- Tsing, fui atacado por um mal da estação; meu corpo ficou fatigado e perdeu a força. Procurei acompanhar a companhia de mercadores, mas, tardando e sofrendo como estava, fui incapaz de alcançá-los. Embora me esforçasse e quisesse seguir em frente, era obrigado a parar cem vezes no espaço de cinco milhas chinesas … Só eu fiquei para trás, e sem companheiro palmilhei os perigosos desfiladeiros. Mais tarde naquele mesmo dia, pouco antes do pôr-dosol, apareceram alguns bandoleiros da montanha; estirando o arco e gritando em altos brados, vieram e mediram com o olhar a minha pessoa; um por um, insultaram-me. Primeiro despiram-me da minha vestimenta superior, depois da inferior. Todos os cinturões e faixas que levava comigo, tiraram-nos também corria no país do Ocidente [a Índia] o rumor de que, quando capturavam um homem branco, matavam-no para oferecê-lo em sacrifício ao céu …. Por isso, entrei num poço de lama e de lama revesti todo o meu corpo. Cobri-me de folhas e, apoiando-me num bastão, lentamente segui viagem.” Bem tarde, naquela mesma noite, alcançou os seus amigos.
Esse relato deixa claro que nem todos os monges eram treinados para lutar; mas não há dúvida de que experiências como essa mostraram aos monges viajantes o quanto era necessário aprender as artes de autodefesa.
Recapitulando: primeiro, não há nenhum indício inequívoco que nos permita identificar a China ou a Índia como o país em que as artes marciais pela primeira vez transformaram-se em sistemas de pensamento e ação mais próximos das artes marciais asiáticas de hoje.
Entretanto, os registros de diversos aspectos dessas antigas culturas têm relação com as origens das artes marciais atuais.
Do ponto de vista puramente físico, os sistemas de luta da antiga Índia, na qual esperava-se do guerreiro que desenvolvesse uma larga gama de habilidades, parecem mais compatíveis com o desenvolvimento das artes marciais do que a atitude mais especializada dos militares chineses.
No que diz respeito à ideologia, porém, as doutrinas do Budismo, na Índia, e do Confucionismo e do Taoísmo, na China, estabelecidas no decorrer dos quinhentos anos que precederam o nascimento do Cristo, foram de pronto adotadas como base filosófica das tradições marciais da Índia, da China e, aliás, da Ásia inteira.
Os registros escritos que se referem diretamente à história das artes marciais são muito fragmentários e, como tais, não podem ser conclusivos. Não obstante, a longa história de trocas culturais entre a China e a Índia nos mostra o quanto é provável que o conhecimento marcial tenha sido partilhado e comunicado entre esses dois países desde as eras mais remotas.
Por isso, talvez seja melhor não procurar escolher um dos dois países, mas antes lembramo-nos dos viajantes – os monges/peregrinos/diplomatas e ,?S mercadores – que abriram as primeiras rotas de comunicação entre essas duas grandes tradições culturais, e concluirmos que o local de nascimento das artes marciais foram as estradas que uniam essas duas grandes civilizações.
A Difusão das Artes Marciais
A história das artes marciais depois do século III d.e. resume-se, sob certo ponto de vista, ao gradual desenvolvimento das técnicas, ao enriquecimento da base filosófica e à lenta disseminação das tradições marciais para outros países, geralmente no rastro da disseminação do Budismo.
Muitas artes marciais diferentes surgiram na Índia e na China no decorrer dos últimos 1.500 anos e várias delas são praticadas ainda hoje, mas a maioria evoluiu a partir das escolas fundadoras; acredita-se, por exemplo, que a maior parte dos estilos de kung-fu nasceu do estilo de luta do Templo de Shaolin. Os sistemas completos de artes marciais, que compreendem uma ideologia e mais uma prática ou técnica, foram exportados para fora das fronteiras da China e da Índia, e chegaram à Coréia, ao Japão e ao Sudeste Asiático.

É provável que esses países tivessem as suas próprias artes de luta, mas, à medida que as técnicas superiores e idéias avançadas vindas do exterior foram assimiladas por seus lutadores, essas artes autóctones foram modificadas; essas modificações, por sua vez, resultaram numa transformação dos sistemas autóctones em verdadeiras artes marciais.
Os atuais sistemas de artes marciais da Birmânia, da Tailândia, da Malásia, da Indonésia, do Vietnã e da Coréia, descritos no Capítulo 10, relacionam-se todos de modo evidente com diversas formas de luta chinesa. Porém, é o conteúdo intelectual que distingue uma arte marcial de uma arte de luta. Embora nos seja possível acompanhar a disseminação das artes marciais de país em país, não sabemos em que momento ocorreu o processo de assimilação e as artes autóctones tornaram-se artes marciais.
Os japoneses, que foram fortemente influenciados pela cultura chinesa, aprenderam com perfeição as lições dos antigos mestres desde tempos muito remotos. Baseando-se nas técnicas chinesas, os japoneses aos poucos desenvolveram as suas próprias formas de artes marciais. Hoje em dia, o Japão é o país mais rico da Ásia, tanto no que diz respeito à variedade de artes marciais quanto no que se refere à proporção da população que as pratica.
A Visão Ocidental do Oriente
No Ocidente, por outro lado, o conhecimento das artes marciais do Oriente praticamente não existia antes do século xx.
Foi só no começo do século XIV que os europeus partiram em suas primeiras viagens de descoberta. Depois de 1400, as sucessivas expedições foram revelando aos poucos um mundo cujos habitantes não-europeus muito impressionavam os filhos da Europa.
Não obstante, os povos da Ásia oriental não se mostraram afetados por ser “descobertos”. Demonstravam pouco interesse pelos recém-chegados, que consideravam bárbaros; e não quiseram fazer-se conhecer.
Tendo perdido o contato com o seu próprio passado, os exploradores europeus tiveram de restabelecer os vínculos que seus ancestrais haviam forjado muitos séculos atrás. Haviam-se esquecido do contato estabelecido com a Índia pelo rei macedônio Alexandre, o Grande, no século IV a.C; das povoaçôes fundadas no sul da Índia pelos romanos já no século I d.C, e logo depois pelos primeiros cristãos; e da abertura da Rota da Seda, que se estendia das fronteiras mediterrâneas do Império Romano até a China Central já no comecinho do século I a.C, mais de quatorze séculos antes de Marco Polo empreender ao longo dela a sua viagem de descoberta.
Além disso, a Europa renascentista não era, de maneira alguma, o centro da vida intelectual do mundo. Quatro das grandes religiões do planeta surgiram no Extremo Oriente; tanto a Índia quanto a China tinham e ainda têm avançadíssimos sistemas de medicina e empreenderam grandes progressos nos campos da matemática, da química e da astronomia.
No que diz respeito à tecnologia, o sinólogo britânico Joseph Needham, em sua erudita série de livros Science and Civilization in China, dá uma lista de trinta e quatro inovações técnicas que já eram usadas na China muito antes de serem descobertas por outros povos, e que só chegaram à Europa e a outras partes do mundo entre o século I e o século XVIII d.e. Entre elas contam-se o carrinho de mão, as máquinas para a produção de tecido de seda, a besta, a pólvora, a bússola, o papel e a imprensa. Por outro lado, só quatro invenções produzidas no Ocidente foram transmitidas à China no decorrer desse mesmo período: o parafuso, a manivela, o mecanismo de corda e a bomba de compressão para líqüidos.
O conhecimento das artes marciais asiáticas praticamente não existia antes do século XX. Por volta de 1900, dois ou três ingleses e outros tantos norte-americanos começaram a aprender judõ e outras artes marciais japonesas. O interesse por elas só cresceu muito lentamente, porém, até depois de 1945, quando, em decorrência do entusiasmo dos militares norte-americanos que estudaram as artes marciais enquanto serviam no Japão, o número de praticantes cresceu de forma dramática.
Esses novos praticantes, contudo, dedicaram-se principalmente ao aprendizado de técnicas japonesas. A disseminação para o Ocidente do conhecimento das artes marciais de outros países da Ásia tem sido ainda mais lenta. Foi só há pouco tempo que os mestres chineses que ensinam em Hong Kong e Taiwan começaram a ceder às pressões de ocidentais para que revelassem suas técnicas, a fim de que suas artes pudessem ser ensinadas na Europa e nos EUA.
Pelo menos uma arte oriental permanece até hoje completamente desconhecida no Ocidente. Nem mesmo os especialistas deixaram de menosprezar a existência de artes marciais no subcontinente indiano. Não se conhece nenhuma descrição de uma arte marcial indiana feita durante o período do governo inglês. Não obstante, na Índia, há uma antiga arte marcial chamada de kalaripayit, a qual, apesar de ser ensinada desde há séculos no sul do país, não foi documentada até hoje.
Os sistemas de artes marciais estão sendo exportados no atacado para o Ocidente. Neste, as pessoas ainda estão aprendendo, e podemos supor que muito tempo terá de transcorrer, talvez várias gerações, para que possamos assistir ao surgimento de sistemas de artes marciais que possam ser chamados de europeus ou americanos da mesma maneira que o judõ, por exemplo, pode ser chamado de japonês.

Demostração da arte marcial Indiana kalarypayati.

3 Respostas to “O Paradoxo das artes marciais.”

  1. cleber fderreira gomes Says:

    gostei desses estilos de luta mais como faso para ser treinado com este estilo de luta!!!

  2. Ola! Sou auto-data em Kung-Fu & Tai Chi desde 1968, pelo sistema do professor Americano Bruc Tegner – pratico o mesmo, atualmente Tenho setenta anos e, amo o Tai Chi – treinei alguns campeões.

  3. Obrigado por visitar o blog. Um grande abraço. Sou um grande admirador do Kung Fu. abraço

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