Viajem fotográfica pela terra do sol nascente. As pontes, os jardins japoneses e a mágicas paisagens, nos transportam a um mundo de beleza gráfica sem igual.
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Na época em que a Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu foi fundada, as artes marciais no Japão eram todas chamadas por um único nome: bujutsu. Bu é a raiz que significa “marcial”, e jutsu significa “habilidade” ou “arte”. Embora o termo nem sempre seja usado de maneira correta no Japão atual, no sentido estrito ele se refere somente àquelas escolas que só ensinam habilidades de combate, como, por exemplo, a Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu.
Muitos séculos depois da fundação dessa escola, as influências do Budismo Zen afetaram as artes marciais japonesas; e, quando o Período de Edo (1603- 1867) – uma longa era de paz – seguiu-se à época dos generais litigantes, um novo conceito entrou nessas artes. Foi nessa época que a idéia de budô veio à existência. Budô significa “via marcial” ou “caminho marcial”. Dô é derivado da palavra chinesa tao e significa um caminho através da vida.

Katana do maior armeiro da história do Japão. Massamune. Katana de aço forjado e dobrado a mão. Seu Hamon, indica mais de 300.000 camadas de dobras.
A palavra budô era e ainda é usada para designar os sistemas marciais com ou sem o uso de armas nos quais alguns dos aspectos funcionais das artes de combate foram transformados, geralmente por razões estéticas.
Não obstante, conceitualmente, budô é mais do que isso. Ao adotar para si uma “via marcial” nessa época de paz, o guerreiro japonês comprometia-se antes de mais nada a seguir um caminho de desenvolvimento espiritual por meio do treinamento marcial. A eficácia prática desse treinamento de combate passou a ser secundária. Assim, a arte de combate pela espada, o ken-jutsu, tornouse o kendô, a via da espada; o naguinata-jutsu, a arte da alabarda, tornou-se o naguinata-dô, a via da alabarda; e assim por diante. Nas escolas de combate (-jutsu), mais antigas, a função predominava sobre a forma; mas nas escolas dô, mais refinadas, a forma e o estilo às vezes sobrepujam a eficiência marcial.
Entretanto, o bushidô ou “caminho do guerreiro” trata antes de mais nada das atitudes e objetivos mentais do guerreiro feudal. Na opinião de Otake Sensei, o bushidô ou código de ética do samurai foi grosseiramente distorcido e assumiu um sentido totalmente diferente do original. Essa distorção ocorreu principalmente na época moderna e foi usadapara justificar sentimentos e atividades nacionalistas e militaristas. O Sensei explica:
“Especialmente em nossa época, quando as pessoas falam sobre a palavra bushidô, lembram-se do recente suicídio de Mishima Yukio (um romancista cujos livros foram publicados no Ocidente) e pensam naquele tipo de bushidô exposto no livro Hagakure, escrito pelo sacerdote Yamamoto Joche. Além de ser sacerdote, ele escreveu seu livro durante o Período Genroku (1688-1704), que foi uma época de paz no Japão. Infelizmente, ele cometeu alguns erros em diversas passagens do livro, ao passo que outros trechos estão escritos de tal modo que podem facilmente ser mal-interpretados.
Este detalhe da pintura de um biombo japonês mostra um general trajado de armadura tradicional atacando o ex’ército inimigo sobre o seu cavalo na batalha do Rio Uji, ocorrida em 1184.
O Xintoísmo é a religião mais antiga do Japão. Os caracteres shintô significam literalmente “o caminho dos deuses”.
“Ele afirma, para resumir, que seguir o bushidô é buscar a morte, mas o sentido de bushidô não se resume a morrer. Por causa dessa interpretação errônea, as pessoas de outros países acham que o bushidô é a mesma coisa que o harakiri ou seppuku, ou seja, o suicídio ritual.
“Na verdade, o sentido de bushidô é o de fazer alguma coisa boa para o mundo, deixar no mundo uma marca benéfica, e depois ser capaz de desapegar-se do corpo humano e aceitar a morte. Porém, é muito fácil entender erroneamente esse conceito. Ele não se resume a sair em busca da morte. Se você tentar realizar algo e por algum motivo não conseguir fazer o que queria, não será muito produtivo pensar: ‘F a-
. lhei, tenho de me matar.’ O bushidô não tem nada que ver com um modo de vida tão irresponsável quanto esse.
“Quando a pessoa tenta fazer algo e não consegue, há também no bushidô o conceito de continuàr a viver, mesmo que na desonra, se houver a possibilidade de corrigir o erro cometido ou remediar a situação. É esse o verdadeiro bushidô.
“É claro que esse conceito existe no Budismo: é o conceito budista de compaixão. Também no Budismo encontramos a premissa de que é bom ajudar os outros, fazer o bem ao mundo, mesmo que isso lhe cause problemas ou possa custar até mesmo a sua vida. Os dois conceitos são idênticos. A mesma coisa está presente no Cristianismo quando os cristãos falam da caridade.

Aqui no Japão, temos o Xintoísmo (Shintô). Trata-se de uma religião cujo nome, quando escrito com os caracteres chineses, significa ‘o caminho de Deus’ ou ‘o caminho dos deuses’. O caractere chinês que significa ‘via’, ‘estrada’ ou ‘caminho’ é escrito em duas partes. A parte à direita é o caractere chinês que significa pescoço ou cabeça; a parte à esquerda significa ‘correr’. O sentido global do caractere que significa ‘via’, ‘estrada’ ou ‘caminho’ é o de ‘tomar a cabeça nas mãos e correr para algum lugar’.
Acima desse caractere escrevemos o caractere que significa ‘deus’, e assim obtemos o escrito ‘via dos deuses’ ou ‘Shintô’. Se, acima do mesmo caractere, escrevermos os dois caracteres que significam bushi ou ‘guerreiro’, a palavra se torna bushidô. A nuance de significado da palavra, portanto, é a de que essa é uma via que exige responsabilidade; em outras palavras, é uma via na qual a sua cabeça, ou o seu pescoço, está em risco.
As diversas artes de cultivo pessoal são escritas com a palavra -dôo O sentido global, portanto, é o de que esse é o caminho correto a ser seguido pelos seres humanos.
Há uma história que, a meu ver, exemplifica muito bem esse ponto. Penso que ela deve ter pelo menos um fundo de verdade. Por volta do ano 1576, os soldados do Senhor Okudaira, um dos parentes próximos do Shogun Tokugawa, estavam sitiados em seu castelo. Dentre os homens havia um guerreiro de posição muito humilde chamado Torisunaemon. Todos os homens estavam no Castelo de Nagashino, sitiados pelos guerreiros da família Takada. O comandante da guarnição do castelo queria enviar um mensageiro ao Shogun Tokugawa para informá-lo da situação e pedir ajuda.
Quando o comandante perguntou quem se dispunha a ir, muitos homens qualificados apresentaram-se, mas um deles em específico, Torisunaemon, era famoso por ser bom nadador, e por isso foi escolhido para fugir do castelo e tentar chegar ao Shogun Tokugawa Ieyasu para pedir ajuda. Os alimentos estavam tão escassos dentro do castelo que os sitiados estavam tendo de comer casca de pinheiros para sobreviver. O comandante pedia que o socorro chegasse em três dias. Depois disso, eles se matariam para não morrer de fome.

Foto de samurai em miniatura (8cm) fotografado em Penjing, floresta miniatura. Aido Bonsai (Paulo Netto)
Torisunaemon conseguiu escapar do sítio e chegar a Tokugawa, que concordou em mandar uma força de alívio em três dias. No caminho de volta, porém, o mensageiro foi capturado pelos soldados de Takada. O comandante dos homens de Takada pensou que, como Torisunaemon não era nobre, mas de classe baixa, poderia ser manipulado. Disse a Torisunaemon: ‘Se você for amanhã de manhã à frente do castelo e disser ao exército que o socorro não virá e que, portanto, eles devem se render agora, farei de você um oficial no meu exército.’
Torisunaemon começou a pensar com seus botões: ‘Se eu for promovido a essa patente, minha mãe ficará muito contente. Seria muito bom que ela visse que eu dei certo na vida.’ Assim, concordou com a proposta do general inimigo.
No dia seguinte, foi amarrado como se fosse um prisioneiro e levado à frente do castelo. Chamou as pessoas lá de dentro: Tenho algo a dizer; vocês todos, escutem com atenção.’ Quando o povo do castelo viu quem era, agrupou-se nas muralhas para ouvir o que ele tinha a dizer. Lá estava ele, amarrado, com todas as pessoas que conhecia olhando-o de dentro do castelo, do outro lado do fosso.
Então pensou consigo mesmo: ‘Por mais que minha mãe ficasse feliz se me visse oficial de um exército, um homem bem-sucedido na vida, ela ficaria muito mais feliz se eu fosse leal e ajudasse as pessoas do castelo a sobreviver a esta batalha, mesmo que eu venha a morrer por isso.’ Por isso, a essa altura, decidiu o que ia dizer e gritou bem alto: ‘Ouçam todos com atenção!’ Então disse: ‘Não desistam; o socorro está chegando, agüentem firme por mais três dias!’ Nesse instante, os soldados de Takada crivaram-no de lanças e o mataram.
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Ai Ki Do "O caminho da harmonia", pintado por Morihei Ueshiba aos oitenta anos de idade. A caligrafia é uma manifestaçnao de aiki: equilibrada, firme e vibrante.
Aiki reflete o grande projeto do cosmos; ele é a força da vida, um poder irresistível que une os aspectos’materiais e espirituais da criação. Aiki é o fluxo da natureza.
Aiki significa a união do corpo e do espírito e é uma manifestação dessa verdade. Além disso, aiki nos permite harmonizar o céu, a terra e a humanidade numa unidade.
Aiki significa “conviver em harmonia”, num estado de entendimento mútuo. Aiki é a virtude social suprema. Ele é o poder da reconciliação e do amor.
A visão que Morihei tem de aiki é muito próxima das idéias de integritas (plenitude) e de consonantia (harmonia) da filosofia ocidental. A integração – entre corpo e espírito, entre eu e o outro, entre humanidade e natureza, entre verdade e beleza – é uma condição que todos devem se empenhar por alcançar, e é também um estado moral: os que são íntegros podem agir da maneira mais apropriada e mais justa.
Consonantia (harmonia, em grego) é um “ajustar-se”. Também os sábios do Ocidente perceberam a harmonia das esferas e o processo em que todos os elementos se integram para formar o todo maior. Como Hipócrates escreveu: “Todas as coisas estão em concordância.” A Física atual define esse conceito com as seguintes palavras:
“A quantidade de energia positiva que existe no universo é exatamente igual à quantidade de energia negativa; o universo é, e sempre foi, um sistema de energia em perfeito equilíbrio.”

A intuição de que “todas as coisas estão em concordância” era uma crença comum no Oriente e também no Ocidente. Lamentavelmente, a civilização moderna foi envenenada pela proposição deturpada de alguns de que a vida não passa de uma forte rivalidade entre espécies em que somente os mais preparados conseguem sobreviver. A vida é sempre uma prova, e as pessoas precisam estar física e mentalmente preparadas para vencê-la – essa é uma das razões por que praticamos Aikidõ – mas a visão perniciosa de que a existência é uma batalha constante contra inimigos que devem ser totalmente subjugados ou aniquilados é uma das causas diretas de grande parte da exploração e da destruição tanto da humanidade como do meio ambiente que irrompeu violentamente nos séculos XIX e XX.

Circularidade. O movimento e aceleração do ataque adversário retornando ao seu ponto de origem. Facerj Aikido
A ênfase dada à necessidade de “vencer”, por quaisquer meios e a qualquer custo, ofuscou enormemente o nobre ideal do “desportismo” nos esportes contemporâneos. Morihei escreveu: “Hoje os esportes só servem como exercício físico – eles não treinam a pessoa como um todo. A prática de aiki, por outro lado, promove o valor, a sinceridade, a fidelidade, a bondade e a beleza, além de tornar o corpo forte e saudável.” No Aikidõ tradicional não existem campeonatos formais, e por conseqüência não há “vencedores”, nem “vencidos”. Algumas pessoas têm muita dificuldade de aceitar essa posição, e mesmo alguns dos discípulos mais próximos de Morihei discordavam do mestre nesse ponto – eles insistiam em implantar algum tipo de competição, semelhante às lutas praticadas no judô ou aos torneios com um sistema de pontuação de estilo olímpico.

Morihei, entretanto, sustentou até o fim que aiki é cooperação. Em cada exercício de Aikidõ, os parceiros se alternam nos papéis de ataque e de defesa, de vencedor e de vencido. Dessa forma, o praticante aprende muito treinando nos dois lados da equação do Aikidõ. Espectadores (e às vezes os próprios estudantes) muitas vezes observam que “as técnicas do Aikidõ só funcionam se o parceiro cooperar”. É precisamente essa a questão. Rinjirõ Shirata Sensei costumava explicar aiki deste modo: “Vivendo em harmonia, demo-nos as mãos e alcancemos a linha de chegada juntos.”

Técnica mental e física. O conhecimento minucioso das articulações do corpo, faz que a força não seja necessária..
Aiki, como um agente de cura, conota ressuscitação e revitalização. Os melhores médicos de todas as culturas compreendem que um diagnóstico apropriado depende em grande parte do fato de ele, médico, estar em sintonia com o paciente para sentir o que este realmente sente. Só então ele terá condições de prescrever um remédio condizente. (No Japão antigo, um tipo de aiki era usado para reanimar pessoas que ficavam inconscientes devido a um acidente ou que entravam em coma devido a alguma doença.) Morihei falava freqüentemente das propriedades restauradoras e salutares do treinamento em aiki: “O volume de energia depois de um bom exercício deve ser maior do que o existente antes do exercício.”
Há um outro significado de aiki que é essencial para a verdadeira harmonia: a união perfeita de um homem e de uma mulher, um estado excelso de total intimidade física e espiritual. (Nos manuais de sexo chineses, aiki era o termo usado para a experiência sexual suprema.) A integração natural e pura dos princípios masculino e feminino está no amago de toda a criação. A libido não deve ser confundida com a mera concupiscência; deve, sim, ser compreendida como um anseio sincero de integração e de realização plena. Macho e fêmea são estéreis até que se unam; o desejo de ficar ligado, como se fosse um, para restaurar a unidade primordial, é um objetivo fundamental do Aikidõ (e de todas as outras artes).
De modo semelhante, existe uma espécie de embriologia do aiki: o filho ideal é concebido quando os pais estão em harmonia total, constituindo uma verdadeira unidade de corpo e de alma. Se os pais permanecem em harmonia durante a gravidez, o feto é alimentado com aiki, uma qualidade que bate no coração da mãe e flui no seu sangue.
Tecnicamente, aiki é a “noção de tempo perfeita”. No dõjõ, o praticante procura fundir-se suavemente com a força de ataque, aplicando o volume exato de movimento, de equilíbrio e de força. Seguindo esse princípio, procuramos nos ajustar também à vida diária, reagindo aos vários desafios da vida com uma noção aguçada de aiki.
Dõ, a segunda metade da palavra Aikidõ, simboliza tanto um “caminho” particular que a pessoa percorre, como um “modo de vida” (way) universal baseado em princípios filosóficos. Os que trilham o caminho do Aikidõ vestem um tipo especial de roupa, meditam de uma certa maneira e praticam técnicas características. Esse é o caminho cultural do Aikidõ, o contexto da prática baseado nos ideais e técnicas clássicas do fundador, Morihei. O modo de vida do Aikidõ abrange o espectro mais amplo da vida – como convivemos com outros seres humanos fora do estreito mundo do dõjõ, como nos relacionamos com a sociedade como um todo e como tratamos a natureza. Nesse sentido, Aikidõ é Tantra, um entrelaçamento do macro e do microcosmo.
A verdade básica do Tantra é: “Tudo o que existe no universo existe dentro do corpo de cada pessoa. O que está aqui, está lá; o que não está aqui, não está em nenhum outro lugar.” O gnosticismo ocidental expressa essa verdade assim: “Quando fizerdes o de cima como o de baixo, e quando fizerdes do macho e da fêmea um só ser, então entrareis no Reino” (Evangelho de Tomé), ou mais sucintamente: “Como em cima, assim embaixo.” No idioma de Morihei, isso se expressa como ware soku uchu, “Eu sou (nós somos) o universo!” Cultivando o nosso corpo e a nossa alma através da prática do Aikidõ, adquirindo uma percepção verdadeira e praticando atos autênticos, aprendemos a viver cosmicamente.
Aikidõ é também ioga, um “jugo” que nos unifica, nos liga e nos atrela a prin cípios superiores. As oito partes do ioga clássico se assemelham aos ensinamentos do Aikidõ clássico de Morihei:
Yama, “princípios éticos”, sendo o mais importante ahimsa, “não-violência”. Nas palavras de Morihei, “Aqueles que procuram a competição estão cometendo um grave erro. Bater, ferir ou destruir é o pior pecado que um ser humano pode cometer”.
Niyama, “disciplina”. No Aikidõ, recebe o nome de tanren (forjar): “O objetivo do treinamento é disciplinar o indolente, enrijecer o corpo e polir o espírito.”
Asana, “posturas graciosas”. Às vezes é útil que o praticante pense nos movi mentos do Aikidõ não como técnicas de uma arte marcial mortífera, mas como: asana, posturas físicas que ligam o praticante a verdades mais elevadas. Como asana, as técnicas do Aikidõ são dolorosas e difíceis no começo, mas no final se tornam mais fáceis, mais estáveis e mais agradáveis. Na verdade, um princípio do ioga diz que “a asana é perfeita quando o esforço para executá-Ia desaparece” e “quem domina a asana conquista os três mundos”. Morihei ensinava: “Funcio nando harmoniosamente juntas, direita e esquerda dão origem a todas as técnicas. Os quatro membros do corpo são os quatro pilares do céu.”
Pranayãma, “controle da respiração”, é necessário para partilhar da respiração do universo: “Inspire e deixe-se levar até os confins do universo; expire e traga o cosmos de volta para dentro de você. Em seguida, respire toda a fecundidade da terra. Finalmente, mescle a respiração do céu e a respiração da terra com a sua própria respiração, transformando-se na própria Respiração da Vida.”

A energia gerada pelo movimento do adversário, é transferida para ele mesmo, durante o seu ataque. "Uma vez tomada a iniciativa pelo agressor, a questão já está decidida" Morihei Ueshiba
Pratyãhara significa “libertar-se da confusão”, um afastamento da distração dos sentidos, uma mente resoluta e imperturbável. Nesse sentido, Morihei ensinava:
“Não fixe o olhar nos olhos do seu oponente: ele pode hipnotizá-Ia. Não fixe os olhos na sua espada: ele pode intimidá-Ia. Não se concentre no seu oponente de maneira alguma: ele pode absorver sua energia.”
Dharana, “fixando a mente”, também conhecida como ekagratã, “mantendo um único ponto”, é um conceito bem-conhecido nos círculos do Aikidõ: “Se está centrado, você pode se movimentar livremente. O centro físico é sua barriga; se sua mente também está assentada ali, você pode ter certeza da vitória em qualquer empreendimento.”
Dhyana, “meditação”, é um estado de intuição profunda e de visão clara: “Expulse os pensamentos limitadores e retome ao verdadeiro vazio. Poste-se no meio do Grande Vazio.”
Samadhi, “absorção total”, vai ainda mais longe. No samadhi, a distinção entre cognoscente e coisa conhecida se dissolve, uma transfiguração que Morihei ex pressava como “Eu sou o universo!” Os poderes sobrenaturais de Morihei tinham origem no seu samadhi-aiki que tudo absorvia, e seu comportamento excêntrico também era característico dos níveis mais elevados do ioga – uma espécie de loucura divina que transcendia o tempo e o espaço. “Se não se unir ao vazio do Puro Vazio, você não encontrará o caminho de aiki.”
Os ensinamentos de Morihei foram resumidos na frase Takemusu Aiki. Take sim boliza “valor e bravura”; representa a irreprimível e inabalável coragem de viver. Musurepresenta nascimento, crescimento, realização, plenitude. É a força criativa do cosmos, responsável pela produção de tudo o que sustenta a vida. Takemusu Aiki é uma expressão simbólica que significa “a existência mais destemida e criativa!”
Aiki significa harmonia e integração – entre corpo e alma, entre o eu e o outro, entre a humanidade e a natureza. Quando praticado adequadamente num ambiente saudável, aiki é uma fonte inesgotável de energia e de amor.
Izanami (à esquerda, sustentando a lua no alto) e Izanagi (à direita, segurando o sol), dois deuses xintoístas da criação. Essa imagem faz parte de um pergaminho de transmissão secreta da escola de esgrima Shinkage. Também no Aikidõ, a interação harmoniosa de Izanami (mãe) e de Izanagi (pai), sexual e espiritualmente, simboliza a natureza cooperativa do universo. Morihei usava com freqüência os símbolos de Izanami e de Izanagi em seus ensinamentos: “Izanami é o elemento feminino, receptivo, associado com a água, força centrífuga, e o lado direito das coisas; Izanagi é o elemento masculino, ativo, associado com o fogo, força centrípeta, e o lado esquerdo das coisas.” Morihei acreditava que toda mulher chegará a realizar seu potencial como uma deusa de compaixão e todo homem seu potencial como um buda vitorioso.
” Pois ouvi dizer que aquele que bem sabe conservar a sua vida não encontra o rinoceronte nem o tigre quando viaja por terra; nem é atacado por armas quando vai para a batalha.O rinoceronte não encontra lugar para enfiar-lhe o chifre; o tigre não encontra lugar para deitar-lhe as garras; as armas não encontram lugar para passar-lhe as lãminas.Por que isto acontece? Porque ele transpôs a região da morte.”
Tao Te Ching, de Lao Tzu
Cerca de uma hora antes do nascer do sol, as crianças de um pequeno povoado rural do sul da Índia reúnem-se numa pedreira dos arredores. A pedreira é iluminada pela lua, queaos poucos some no céu, e por uma lâmpada fluorescente suspensa. As crianças conversam entre si, e suas vozes mal se destacam contra os sons bruscos do povoado que desperta: um balde sendo enchido de água num poço; um prolongado e agonizante acesso de tosse. Então o Mestre chega e, depois das adequadas saudações aos deuses e a ele, as crianças começam a sessão matinal de kalaripayit, a arte marcial do sul da Índia.
Praticam durante cerca de uma hora, girando e contorcendo-se com agilidade extraordinária, o som de sua respiração formando uma espécie de contraponto com os outros sons que os rodeiam – os grasnidos dos primeiros bandos de corvos que cruzam o céu cada vez mais claro; os passos silenciosos de um elefante que caminha sossegado rumo a uma obra de construção nas proximidades; a terra sendo varrida pelas mães das mesmas crianças; e os alto-falantes do templo local, que tocam de forma distorcida uma música sagrada que ecoa pelos campos. Por fim, quando o sol chega à altura das folhas mais altas dos coqueiros, a aula termina e as crianças vão para a escola ou para o trabalho.
O Templo de Venkatanatha foi construído no século VII d.e. no precinto dos templos de Kanchipuram, perto de Madras, na Índia. Os frisos de suas paredes internas trazem representações dos conflitos entre as dinastias reais e contêm algumas das mais antigas imagens de técnicas de artes marciais.
Como não há nem escolas nem mestres de kalaripayit fora da Índia, podemos compreender por que essa tradição tem sido tão esquecida pelos estudiosos de artes marciais. É extraordinário, porém, que nenhum dos pesquisadores e escritores que vêm estudando as artes marciais há tantos anos tenha feito se quer uma simples menção à existência do kalaripayit. Os poucos escritores que falam das artes marciais indianas só fazem referência a um sistema importado, semelhante ao karatê; mas é difícil crer que qualquer um que tenha visto indianos praticando kalaripayit possa descrevê-la desse modo. Mas, enfim, como essa atitude existe, sentimos ser o nosso dever elaborar uma defesa desta arte marcial praticamente desconhecida.
O estilo setentrional de kalaripayit dá ênfase à capacidade de elevar-se de uma posição quase deitada para uma postura alta. Este tipo de exercício aumenta a agilidade e a flexibilidade. Neste caso, o aluno também se vira para o outro lado em pleno ar.
Há dois pontos que têm de ser esclarecidos antes de mais nada. Em primeiro lugar, será o kalaripayit uma arte marcial surgida na Índia, ou terá sido importada? E, em segundo lugar, será que permanece a mesma desde que foi criada ou acaso sumiu para depois reaparecer, talvez sob outra forma?
Podemos provar que as artes marciais já eram praticadas no sul da Índia durante os séculos VI e VII. Certas estátuas do Templo de Kanchipuram, perto de Madras, construído no começo do século VII d.C., representam o uso de técnicas completas de desarmamento, bem como o uso das mais diversas armas. Dispomos também dos testemunhos oculares de Hsüan-tsang, o famoso peregrino, erudito e diplomata chinês, que escreveu sobre as armas indianas que viu em sua viagem:
“Os principais soldados do país são escolhidos dentre os membros mais corajosos do povo, e, como os filhos seguem a profissão dos pais, desde muito cedo adquirem um conhecimento da arte da guerra. [Em tempo de paz], residem numa guarnição em torno do palácio, mas quando saem em expedição marcham na frente das outras tropas, cumprindo o papel de vanguarda. O exército tem quatro divisões, a saber: (1) a infantaria, (2) a cavalaria, (3) as carruagens e (4) os elefantes. Estes últimos são recobertos de uma forte armadura, e esporões afiados são instalados em suas presas. O comandante fica numa carruagem de guerra, que é dirigida por dois cocheiros, um dos quais fica à direita e o outro à esquerda, e é puxada por quatro cavalos dispostos de largo. O general dos soldados permanece em seu carro de guerra; é rodeado por uma fileira de guardas, que jamais se afastam das rodas da carruagem.
“A cavalaria espalha-se à frente para resistir aos ataques e, em caso de derrota, para distribuir as ordens pelo exército inteiro. A infantaria, por seus movimentos rápidos, contribui com a defesa. Os homens de infantaria são escolhidos por sua coragem e sua força. Levam uma longa lança e um escudo enorme; às vezes portam uma espada ou um sabre, e avançam à frente com impetuosidade. Todas as suas armas de guerra são pontudas e afiadas. Eis algumas delas: lanças,
Muitas das posturas da dança clássica indiana assemelham-se às posturas do kalaripayit, o que nos dá a entender que as duas artes descendem de uma tradição comum de luta, como mostram estas duas fotografias. A postura clássica de dança adotada pela jovem dançarina da foto abaixo é idêntica à postura do deus, acima, que foi entalhada no começo do século VII na parede de um dos templos de Kanchipuram.
As vidas dos mestres, cada qual em sua aldeia, geralmente seguem todas o mesmo modelo. Depois da prática matinal com as crianças, eles se dedicam à sua outra função importante, a de médico do povoado.
Nas artes marciais, é comum que os mestres sejam também médicos. Em virtude da própria natureza da arte, a pessoa que pratica técnicas de luta por muito tempo vai adquirindo um conhecimento cada vez maior de medicina, uma vez que quase todo dia há alguém que se machuca durante a prática. Ainda quando é um jovem aluno, o mestre aprende a curar hematomas e distensões leves; mas, à medida que passa a dedicar-se seriamente à arte e já antevê a possibilidade de tomar-se um mestre, começa a estudar mais e aprende a curar fraturas e ferimentos internos. Muitos mestres não ultrapassam esse nível de conhecimento, mas outros vão adiante e chegam à maestria total na prática da medicina de seu país.
Um dia passado na companhia de um mestre médico, vendo-o cuidar de seus pacientes, nos mostra o quanto a medicina ocidental é limitada por suas técnicas científicas rígidas e mecânicas. Mesmo no caso de um médico de aldeia, o sistema tradicional de medicina da Índia (Ayurveda) caracteriza-se por uma profundidade de cuidado e atenção ao paciente que quase não se encontra no Ocidente.
Muitos pacientes são homens que se machucaram no trabalho, geralmente por trabalhar demais. Para um pobre pescador, um dia de trabalho perdido numa consulta ao médico é uma perda severa, que se prolonga até que o médico consiga ajudá-lo a recuperar as forças para voltar a arrastar as redes de pesca.
O nome halaripayit é uma combinação de duas palavras usadas pelo povo de Kerala, que fala a língua malaiala. Kalari significa “lugar” ou “campo de batalha”, e payit significa “práticas”. Portanto, o termo significa literalmente “treinamento ou prática para o campo de batalha”. O kalaripayitcompreende dois grandes estilos que, por se distribuírem segundo uma divisão geográfica, são conhecidos como estilos do norte e do sul.